A benção de Seu Nilo

Filipe Barboza

Seu Nilo, 63 anos, é uma figura muito conhecida no bairro Galego – local onde mora desde que se mudou para cidade de Mariana em 1972. Sua fama não se dá pelo fato dele sustentar, em seu pequeno rosto, um autêntico bigode negro. Muito menos, por ele preservar cabelos encaracolados de meio tamanho – sem nenhum fio branco. A reputação deste homem está relacionada ao que ele próprio intitula de “dom”. Tanto é que, para encontrar a sua residência, basta subir os íngremes morros do local e sair perguntando a poucas pessoas: “onde mora o benzedor?”

Seguindo a referência de um ou o dedo indicador de outro, eu logo estava diante da pequena residência desse misterioso senhor. Por mais que o bairro esteja localizado em um excelente ponto estratégico da cidade – próximo ao centro e à Rodovia do Contorno – o ambiente não demonstra luxos, glamour, muito menos fartura. Casas e barracos de aparência humilde estão espalhados de forma labiríntica pelos morros. Mas o lugar não aparenta ser, o que se costuma denominar de “favela”. De forma resumida, o Galego é uma área em que se veem pessoas de diferentes classes sociais convivendo entre muros e grades.

A singela casa do Seu Nilo fica na rua “Dr. Dantes Guimarães Sampaio, nº 44”. Com sua fachada pintada de branco, e uma varanda de grades enferrujadas. Anexado a essa moradia, há um pequeno cômodo, de paredes “chapiscadas”, fechado por uma velha porta. Logo na entrada, há também um banco de madeira com a capacidade de suportar, no máximo, três pessoas.

No primeiro contato comigo, Seu Nilo demonstra desconfiança no convite sobre a produção do seu perfil. Tanto é que ele diz seu nome de forma errada, propositalmente: Nilo Teles Anacleto se apresenta como: “Nilo Telesafor”. Apesar de duvidar dessa alcunha, tento contornar o incômodo, explicando tudo de forma simples, direta e simpática – nada fácil.

Depois dos iniciais minutos de suspeitas, a conversa começa a render e se divide em vários assuntos. Pergunto sobre seu passado e ele me responde que é natural do distrito Bandeirante e que atende pessoas com problemas espirituais e corporais, desde adolescente. Tudo isso, com auxílio e permissão de Deus.

Até que, surpreendentemente, o benzedor pega suas chaves e me convida para entrar no seu antro de bendição. O lugar é o acanhado cômodo da porta velha. Esse ambiente, se fosse uma garagem, mal caberia um carro popular. Mas a magnitude do local não está em sua dimensão espacial, mas sim, nas várias imagens santas e nas incontáveis fotos 3×4 de seus “clientes”. Confesso que tentei contá-las.

Dentro do abafado espaço, Seu Nilo – um católico fervoroso – garante não ser um homem “espírita” nem nada do gênero, mas simplesmente um “vidente” que possui o “dom” de “entrar na mente das pessoas” e compreender as suas angústias, aflições, doenças e medos.

Nesse ambiente escuro, ele atende toda segunda, quarta e sexta-feira, das 8h às 16h, pessoas de Mariana e de distritos. Dependendo do dia podem aparecer de dez a 30 “fiéis”. E, mesmo com todo esse sucesso na “Praça”, Nilo afirma não cobrar ajuda financeira, mesmo tendo que viver com um pequeno salário da sua aposentadoria, oriunda da antiga profissão: servente de pedreiro. Para ele, honestidade e confiança são características indispensáveis para a manutenção de seu “dom”. Entretanto, se alguém quiser contribuir, seja comprando materiais religiosos, ou dando alguma quantia em dinheiro não há problemas em aceitar a oferta. “Tenho muito gasto com velas, pois aqui dentro só há iluminação por elas. Não tem luz elétrica, não. Se alguém me dá de presente, eu aceito”.

Como era terça-feira e ainda por cima, 18h, não tinha como observar o trabalho realizado por Nilo. Portanto, combinei de voltar no dia seguinte, no horário de funcionamento das bênçãos. Com a intenção de continuar o papo, e logicamente, ser abençoado. Na quarta-feira, por volta das 9h30, retornei ao morro do Galego e, ainda com a respiração ofegante, observei o que estava ao meu redor. Pensei que lá haveria um grande silêncio, por se tratar de uma área conhecida pelo trabalho de fé do Seu Nilo. Entretanto, uma das vizinhas parecia não se importar com essa questão. Pois, o som que vinha de dentro de sua casa, com músicas do Exaltasamba e, posteriormente, da Shakira, tinha condição de ser ouvido por todos daquela rua.

Olhei para o resto da cidade e vi as belas casas do Bairro Cruzeiro do Sul em contraste com o cemitério Santana. Enxerguei também matas e montanhas que cobrem Mariana. Após essa rápida análise, entendi a história contada por Seu Nilo, no dia anterior, sobre o nome daquele lugar. “Aqui se chama Galego, porque antigamente existia muita plantação de limão Galego, mas o nome oficial daqui é Bairro Bela Vista”. Era exatamente o que eu enxergava: uma bela vista.

Na entrada da casa do benzedor havia um “fiel” de pé, assim como eu, porque o banco era ocupado por três senhoras. A educação daquele lugar diz que a preferência de descanso é das mulheres. Eis que surge um belo cachorro vira-lata, de médio porte, que se aproxima de todos e deita debaixo do banco, bem perto das pernas das senhoras. Pensei no que Nilo havia me dito na noite anterior: “eu também benzo animais e objetos”. Mas o bicho não estava ali para receber oração. Era só uma tática de fuga do forte frio naquela manhã.

O som emitido da casa em frente termina quando outra vizinha bate no portão e inicia uma prosa. Mas a papo principal ocorre mesmo entre as três senhoras sentadas no banco. Elas parecem ter em torno de 55 anos. Uma reclama do barulho e do gosto musical “duvidoso” oriundo da residência da vizinha, enquanto outra se diz cansada de “subir a serra”. Assistindo a isso, tentei deduzir a faixa etária do público alvo de Nilo. Mas, deixei a dedução de lado, no momento em que uma jovem, de aproximadamente 20 anos, saía do pequeno cômodo de orações com uma aparência que transmitia leveza.

Lá não há filas, todos já sabem quem chegou primeiro ou depois. Após a saída da jovem, o homem que aguardava em pé entra, imediatamente. Não é necessário ser chamado por Seu Nilo. É um fluxo constante e, por incrível que pareça, organizado.

Depois de o benzedor atender três pessoas, e descansar um pouco tomando um cafezinho, havia chegado minha vez. Seu Nilo, vestido com uma camisa pólo amarela e uma calça jeans simples me indaga: “Em que posso ajudar?”. Digo que estou ali para terminar o papo da noite anterior, e obter a sua benção. Ele pede para que eu fique de pé, em frente a um pequeno altar improvisado, com as duas mãos apontando para as velas. E me pergunta qual é o problema. Respondo que ando meio triste, cabisbaixo.

– Você crê em Deus?

– Creio, Seu Nilo, mas não sou muito de ir em igreja ou fazer orações. Prefiro conversar.

– Se é da vontade de Cristo o que está sendo pensado e desejado, todo mal pode ser cortado e afastado?

– Sim.

– Posso te libertar de todo mal para sempre? Em casa e no seu trabalho? Nos estudos e onde está sendo firmado? (balanço verticalmente minha cabeça)

– Posso entrar na sua mente? (balanço, mais uma vez, verticalmente minha cabeça demonstrando que sim)

– Então eu o abençoo em nome do pai, filho e Espírito Santo. (faço o sinal da cruz)

Seu Nilo dá o diagnóstico:

– Você não tem nada não, tá? Não tem nada não. Sua saúde espiritual tá boa. Então esse problema que você falou aí, não significa nada contra você. As coisas suas vai encaminhar pra você, do jeito que você quer. É só confiar em Deus. Pediu ajuda dele, as portas abrem! E vai chegar ao seu obêjetivo, tá?

– Tá bom.

– Deus é muito bom, né?

Quando eu já imaginava que o ritual havia terminado, Seu Nilo pega em um frasco, parecido com um remédio conta-gotas, e pinga um óleo transparente, com um cheiro doce, no meu polegar direito. Ele pede para que eu aponte os dedos mais uma vez em direção às velas, faz mais algumas orações e me induz a repetir o sinal do crucifixo na minha testa com o polegar molhado. Assim se encerra o ritual que durou, aproximadamente, 10 minutos.

Independentemente das minhas crenças, entendi que o papel desse simpático e desconfiado senhor é muito importante. Seu Nilo consegue ser companheiro, psicólogo e até médico daquelas pessoas, que na maioria das vezes, se apegam na religiosidade para contornar e refletir sobre seus problemas. Um papel que deveria ser cumprido por instituições governamentais. Isso mostra que palavras de conforto e discurso religioso continuam alimentando a esperança de muita gente na cidade de Mariana e região.

Acho que Seu Nilo percebeu que eu não tinha nenhum motivo grave para estar ali. Talvez realmente ele tenha entrado em minha mente e descoberto que a curiosidade para assistir o ritual era maior que a real necessidade de bendição. De qualquer forma, me senti aliviado ao saber que não tenho, aparentemente, nenhum problema relacionado ao meu lado espiritual.

Filipe Barboza

Filipe Barboza - Filipe Barboza é natural de Ouro Preto, mas reconhece Mariana como “cidade natal”, visto que nela foram desenvolvidos os maiores laços da sua vida. Bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal de Ouro Preto, atualmente cursa pós-graduação lato sensu em Comunicação Estratégica pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

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