A mulher que distribui livros

Laurence Henrique Ribeiro da Silva

Andreia Donadon-Leal. Foto: Acervo pessoal Andreia Donadon-Leal. Foto: Acervo pessoal “Um livro fechado é menos um leitor; defendo a ideia de que o livro tem que circular”. Não dá para falar de Andreia sem dizer sobre o “Poesia Viva – a poesia bate à sua porta”. Pioneiro no Brasil, o projeto nasceu nas ladeiras históricas da cidade de Mariana e tem o propósito de dar pernas ao livro e asas ao leitor.

É de porta em porta que Andreia abre caminho para a leitura. A escritora considera que todas as pessoas são leitores em potencial, inclusive aqueles que ainda sequer sabem ler. E para que a leitura seja despertada, o livro tem de sair da biblioteca e chegar aonde o povo está. O trabalho é difícil – Andreia diz que é um ofício de formiguinha –, mas a autora bate pernas distribuindo livros aos seus filhos, forma carinhosa como trata seus leitores.

Andreia Aparecida Silva Donadon Leal, que assina Andreia Donadon Leal na literatura e Deia Leal nas artes plásticas, nasceu em 1973, na cidade mineira de Itabira. Filha de um simples contador e de uma dona de casa, ela conta que não teve uma infância rodeada de brinquedos. Nessa época, a biblioteca da escola primária era o lugar mais frequentado por Andreia, que trocou as bonecas pelos livros. Diante de uma vida sofrida encontrou refúgio nas histórias das obras daquela primeira biblioteca da infância, no interior de Minas que, diga-se de passagem, nunca mais a deixou. “Foi lá que eu aprendi a gostar das letras, dos livros, da literatura de uma forma especial antes mesmo de ser alfabetizada”, conta em meio a um olhar brilhante e um sorriso de canto.

O gosto pela leitura começou bem cedo. O hábito que mais tarde se tornara uma paixão foi herdado do pai que sempre nos finais de semana lia trechos para os quatro filhos. “Mesmo sem saber a grandiosidade de seu ato, meu pai me ensinou a leitura do mundo. Esse tipo de conhecimento do universo é olhar para a natureza e saber como está o tempo na primavera, no verão, no outono e no inverno”. Diz ela que esse estímulo familiar foi fundamental para que se encantasse pelo mundo das letras.

É graduada em Letras pela Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), especialista em Artes Visuais e Cultura pelo SESC-MG, e mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Além de escritora – possui 14 títulos publicados –, é artista plástica, contista, cronista e poeta. A propósito, Andreia é uma das criadoras de uma nova modalidade de poesia, a aldravia, com os poetas aldravistas de Mariana. A forma simples de fazer poesia é estruturada em seis versos univocabulares, um vocábulo em cada linha, sem a exigência de rimas.

Filhos leitores:

Durante suas andanças distribuindo letras a autora quase sempre se depara com a proverbial pergunta: – você tem filhos? A indagação rotineira e banal é uma cobrança da sociedade, mas a resposta, quase que de maneira imediata é sim. São os filhos da leitura que Andreia cuida e ama, como se fossem de sangue. Para ela a sua fertilidade está nos novos leitores que ganha a cada dia em que o projeto cresce.

Andreia Donadon-Leal. Foto: Acervo pessoal Andreia Donadon-Leal e os leitores mirins em Mariana/MG e um dos inúmeros projetos aldravistas. Foto: Acervo pessoal

Casada com escritor e professor universitário J. B. Donadon-Leal, Andreia tem tantos filhos que até já perdeu as contas. Só em Mariana, cidade onde reside atualmente, são mais de cinco mil agregados. São filhos de todas as idades – alguns até mais velhos que a escritora –, de raças e gostos diferentes, mas que possuem um denominador em comum: o gosto pelas aventuras escritas por Andreia.

A inspiração para continuar com o projeto Poesia Viva bate à sua porta – iniciativa derivada da proposta literária Aldravista, originado da aldrava, peça muito usada como batedor fixada na porta de entrada das casas nas cidades históricas de Minas Gerais desde o período barroco – vem de suas crias, espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. Uma de suas filhas, uma humilde senhora da cidade de Santa Bárbara, em Minas Gerais, diz que em momentos de extrema solidão lê e relê as obras de Andreia durante o romper das madrugadas.

Diferentemente de muitos autores, Deia, forma como me refiro à escritora, acredita que o livro tem de ir até o povo e não o caminho contrário – maneira questionada por ela –. Andreia vê a leitura, simplesmente, como uma forma de libertar o homem. Para ela o indivíduo deve ser independente – no sentido de liberdade –, livre até para recusar o convite de uma boa leitura.

Andreia Donadon-Leal. Foto: Acervo pessoal Andreia Donadon-Leal. Foto: Acervo pessoalAndreia Donadon Leal
Letralize em mim
Letralize em nós
Letralize no mundo

__________

Artificial
flor repousa sobre a mesa
Quisera ter sede
além
das
estrelas
meu
pai
__________

mãe
na
janela
à
minha
espera
__________

eu

sol
no
seu
céu
__________

Paris
abre
alas
para
aldravias
passarem
__________

Mariana
tricentenária
mortas
alegrias
amargam
histórias
__________

penetram
minha
alma
seus
olhos
luminosos
__________

aldravias
buscam
continentes
em
longínquas
porções

Laurence Henrique Ribeiro da Silva

Laurence Henrique Ribeiro da Silva - Nascido na cidade de Morrinhos, no interior de Goiás. Tem 20 anos e é o caçula de três irmãos. Estuda Jornalismo na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). É estagiário no departamento de comunicação da Câmara Municipal de Mariana e voluntário da assessoria do Instituto de Ciências Sociais Aplicadas (ICSA) da UFOP.

2 comentários em A mulher que distribui livros

  1. Maria Aparecida Fontanari Martinez disse:

    Adorei saber um pouco da história dela, sou professora e escritora, luto muito para fazer com que as pessoas entendam que através do hábito da leitura um mundo maravilhoso surge para cada um. Meu pseudônimo é Cidinha Fontanari. Quero te dar os parabéns pela iniciativa, um Feliz Natal e um Ano Novo repleto de boas ideias e grandes leituras.

  2. luciana Gonçalves disse:

    Boa noite.Adorei o projeto a qual desempenha.Estou graduando pedagogia e atualmente estou estagiando em uma escola de uma comunidade no Município de Contagem, gostaria de saber como poderia adquirir um quite para mim pois gosto muito de ler e também alguns quites para distribuir entre os alunos da escola onde trabalho. Seria possível? Agradeço e parabéns pela iniciativa.

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