Bem mais além das amenidades…

Flávia Rodrigues

Onde vá,
Onde quer que eu vá
Leva o coração feliz
Toca a flauta da alegria
Como doce menestrel
(Oswaldo Montenegro)

Com alguns versos cantados por seu ídolo, Oswaldo Montenegro, começamos a rascunhar a personagem que cansada da rotina de coadjuvante, buscou seu espaço para construir o próprio roteiro de protagonista. A sua vida, ou seu longa-metragem, percorre os mais variados gêneros. O que outrora parecia drama de derramar lágrimas passa a uma comédia nada romântica, com boas risadas garantidas.

Entrevista com a escritora Valdete Cândida Braga Está é a história de Valdete Cândida Braga que tem a cidade de Ouro Preto como cenário. A escritora que faz do clichê “batalhou muito na vida pra chegar até aqui…”Esta é a história de Valdete Cândida Braga que tem a cidade de Ouro Preto como cenário. A escritora que faz do clichê “batalhou muito na vida pra chegar até aqui…” uma trama diferente das demais, onde a persistência e o idealismo, quando deparados com alguns contratempos, se destacam fazendo total diferença.

A infância não é a melhor das suas lembranças. Sexta filha e entre sete irmãos, ela ajudou a sua mãe, a qual fala com muita saudade, a criar seus irmãos depois de perder o seu pai cedo. Hoje ela carrega a satisfação de ter estudado, formado e construído um grande caráter. “Tive muitas dificuldades, tanto financeiras como emocionais, mas, graças a Deus, a minha mãe se esforçou ao máximo e, hoje, somos todos pessoas de bem”.

Os obstáculos de atrás, como problemas de rejeição, fizeram com que ela fosse uma criança um pouco problemática e uma adolescente rebelde. Mas nada que o tempo e as experiências de vida não resolvessem. Procurando, assim como todos, sempre fazer o seu melhor, Valdete reconhece seus defeitos e os aceita. Sabe que não agrada a gregos e troianos, mas sabe que, honrosamente, chega bem perto disso.

A família é uma das suas maiores dificuldades. “Perdi meu pai ainda muito criança, pouco me lembro dele. A minha mãe se foi há sete meses, e os meus irmãos são bastante diferentes de mim”. Por mais que pareça um “peixe fora d’água”, a escritora vê a família como base de tudo e para ela que destina seu amor, junto do cachorrinho Jeremias. O poddle toy tem vida de rei. Obediente, asseado e supere bem cuidado, Jeremias, faz a alegria de Valdete em casa: “Acho que ninguém é obrigado a ter um bichinho de estimação, mas quem tem é obrigado a cuidar”. Mas ela deixa claro: “Ele é um cachorrinho, não um bebê!”.

Com seus 18 anos, Valdete formou-se e começou a trabalhar no setor de Almoxarifado de uma empresa de ônibus. Precisava, devido ás condições financeiras de sua família, e fez. Mais tarde, foi trabalhar na então na Escola Técnica, hoje IFMG, onde havia feito o segundo grau. “Comecei como estagiária, depois fui telefonista, passei por vários setores, até me encontrar no Setor de Comunicação Social, onde estou até hoje.”

Paralelamente, Valdete fez o curso de Letras pela UFOP. Trabalhava durante o dia e estudava a noite. E foi onde ela se encontrou. Realmente, brilho nos olhos e a alegria com que fala dos seus cinco livros já publicados de forma independente transparece sua realização. “Cada vez que consigo publicar um livro, sinto que estou no caminho certo. Realizo-me completamente na literatura.” O prazer visível traz uma dúvida: não sabe se fez Letras ou se as letras a fizeram.

A paixão em escrever é ilustrada por alguns prêmios conquistados em concursos literários que participou. Foi supervisora de um jornal local, O Clarim, e fez vários textos para jornais da região. Hoje, também colunista do jornal O Liberal, Valdete escreve sobre temas do cotidiano em sua coluna “Amenidades”. “Escolhi esse título porque eu acho que o mundo anda violento demais e que geralmente o que a gente vê nos jornais são notícias pesadas, crimes, prisões, drogas, etc.” Se não dá para fugir de tanta tragédia, Valdete tenta relaxar seus leitores com mensagens de otimismo.

Contudo, o gosto por “polemizar” um pouquinho não escapa de seus textos. “Dou uns puxõezinhos de orelhas.” A maneira como retrata a vida junto das suas verdades são quase inseparáveis de uma pitada de ironia. Falar tudo o que pensa dessa maneira deixa muita gente sem resposta.

Além das letras as notas musicais. Valdete tem uma ligação com a música. Além de ter cantado em algumas solenidades e ter uma banda de rock nos anos 80, o “Xeque-Mate” que fazia apresentações em bares e em eventos nas proximidades, a também cantora é fã incondicional de Oswaldo Montenegro. Mais que fanatismo para com um ídolo, Valdete definiu o sentimento pelo cantor como uma simbiose, desde o começo de sua carreira. “O interessante é que cada música dele, de alguma forma, falava alguma coisa que estava acontecendo comigo. Era impressionante. Se eu estava me sentindo sozinha, ele falava de solidão. Se eu estava feliz, ele falava de felicidade, por ai a fora.” Depois de conhecê-lo pessoalmente, Valdete vê Oswaldo Montenegro, ou “meu ET”, como o chama, como prova que os sonhos realizam. “Todo mundo que eu conto fala que eu sou doida, mas eu chamo de sonho realizado.”

Entre muito de seus sonhos, realizados ou não, Valdete vê a vida como o maior deles. O que é confirmado na alegria e no bom humor que fazem parte de seu dia-a-dia. “É maravilhoso constatar que a maioria deles não existe porque foram realizados.”

As palavras são de quem não tem medo e nem dúvida quando ela é o assunto. Valdete sabe que, para falar de si mesmo, a modéstia não é requisito. “Acho que , porque já passei por muita coisa na vida e consegui dar a volta por cima, não fico muito preocupada em ser humilde.” E não precisa. O orgulho não é nocivo. Por ter sobrevivido a verdadeiros vendavais, ela se define como uma pessoa forte, com muita fé em Deus.

A mulher-guerreira-amiga-cantora-escritora desfila o prazer de quem sabe como aproveitar a vida. E quem não teve a oportunidade de conhecê-la, lê aqui, algumas palavras sobre um coração feliz que vive intenso por ai. Parafraseando Oswaldo Montenegro, com certeza ele diria: “E que a minha loucura seja perdoada. Porque metade de mim é amor. E a outra metade também.”

 

Flávia Rodrigues - Estudante do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto

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