“Divertir os outros, um dos modos mais emocionantes de existir”

José Pedro Bezerra e Nathália Barreto

Xisto Siman. Foto: Dilvulgação Entrevista com Xisto Siman. Foto: DilvulgaçãoFelicidade é ver nas pequenas coisas o que o mundo tem de bom. Ter vontade de comer um doce e esperar um pouco para apreciar melhor seu gosto. Dar uma topada na parede para ver o sorriso de uma criança. Para um profissional do riso, que há 22 anos faz a alegria das pessoas, a felicidade não está apenas nos grandes feitos, mas nos pequenos e simples gestos.

Em homenagem aos avôs, Xisto Pinto e José Costa, Xisto José Pinto Costa, mineiro de Governador Valadares é palhaço e um dos donos do Circovolante sediado em Mariana, Minas Gerais. Em 41 anos de vida, Xisto Siman, seu nome artístico, também compõe músicas, escreve poesia, canta em uma banda, desenha e pinta, além de fazer apresentações por todo o Brasil.

Seus pais, Miguel Couto da Costa e Silva e Efigênia Maria Siman Pinto da Costa vieram de cidades do interior de Minas e segundo Xisto, são “educados, bacanas, divertidos”. Mesmo sem demonstrar o carinho com que normalmente os filhos tratam os pais, o palhaço falou que eles aceitaram sua carreira. “No começo houve um receio, claro que todo pai quer que o filho curse uma medicina ou uma odontologia que dá mais dinheiro. Mas quando me viram trabalhando direto e seriamente aceitaram. Também não tinham opção”.

Concluiu o segundo grau na Bahia, depois de ter nascido e estudado até a oitava série em Governador Valadares. Depois que terminou seus estudos em 1987, voltou para sua cidade natal, onde fez um curso técnico em processamento de dados. Porém, em 1990 começou a se envolver com o teatro. Para Xisto a grande escola da arte é a experiência que se adquire fazendo a própria arte.

Suas lembranças de infância são de férias na casas dos tios, onde se reunia com os primos e se divertia. Com o circo, relembra dos tempos que passava na casa de seus avôs, em uma cidade pequena, ou como ele diz “roça mesmo”, onde ele visitou as tendas onde ficavam os artistas e conheceu um casal, uma mulher cega e seu marido trapezista, e os dois dividiam uma cama de armar.

Ou de quando ficava na casa de sua avó, em frente ao colégio de padres, aos seis anos, antes de começar a estudar lá. Tinha amizade com as serventes, secretárias e porteiros do colégio, e lembra-se de um sábado, quando não havia aula. As serventes estavam lavando o banheiro e ele pediu para que elas o deixassem lavar também. Já mostrando seu jeito de palhaço, Xisto começou a se molhar, pois fazia muito calor na tarde. E não perdeu tempo em começar a molhar as serventes também.

Nem sua mãe escapa de suas piadas. Com um nome muito grande, Xisto disse que sua mãe iria diminuir seu nome quando casasse, porém seu avô morreu perto do casamento e sua mãe disse que não tiraria o nome de seu pai. “Ela disse que casava só se o Pinto viesse junto”. Sua secretária, Paulinha, recebeu um “elogio” do café que ele pediu para que ela preparasse: “Isso é um chá Paulinha?”. Também, aos risos, escondeu algumas lembranças, dizendo não serem apropriadas para o momento.

Leitor de Clarisse Lispector e de poesias, afirma que a internet é uma “faca de dois legumes”. Por um lado tem a variedade e facilidade de se encontrar artigos sobre artes cênicas, técnicas e história do circo, assuntos que gosta de ler. Por outro, tem as notícias “fast-food”, ou seja, se fala de muitos assuntos, mas não se aprofunda em nada.

Conta com orgulho que, aos nove anos, uma poesia de sua autoria foi selecionada para um livro de poesias. É um homem de fases. Às vezes gosta de escrever, às vezes prefere desenhar. Atualmente com sua banda , faz shows onde toca musicas próprias, de amigos, e de autores consagrados como Chico Buarque, Nação Zumbi, Milton Nascimento, Banda Karnak e cantigas populares.

O que considera mais importante em sua vida foi a construção de sua carreira e do Circovolante. No inicio acreditava que não seria possível conciliar suas formas de expressão. Hoje sabe que cada vertente artística que tem colabora com a outra, e como diz ele “está tudo junto e misturado. As músicas que componho acabam tendo uma comicidade que acaba sendo ótimo para os números de circo, como em ‘Me joga na parede me chama de lagartixa’ no final de uma música que era mais ou menos séria”.

Começou sua carreira no extinto grupo Stronzo, de Governador Valadares, onde conheceu o amigo João Pinheiro, com quem trabalha e se apresenta até hoje. “Em 2011 fazem 20 anos que trabalhamos juntos”. Depois de uma apresentação em Mariana – MG foram convidados a transferir a sede para a cidade, com o apoio de grandes empresas da região, como Vale, Samarco, Samitri e SESI, ficando durante cinco anos instalados em um antigo armazém em Passagem de Mariana. Em dois anos trouxeram 60 espetáculos, o que ajudou na aproximação com a comunidade. Depois que o grupo se separou, Xisto e João realizaram um sonho, com a criação do Circovolante, em 2000, montando a sede no centro da cidade.

E por falar em sonho, Xisto diz que não existe nenhum projeto pessoal grandioso para o momento. Prefere dizer que existem vários sonhos pequenos que com o tempo vão sendo amadurecidos e realizados. “Eu tenho trabalhado muito e sei que isso vai render para que eu alcance os meus objetivos. É como se eles estivessem todos aqui, em cima da minha cabeça. Aí eu grudo em um e vou subindo”. Disse não quer coisas que estão muito longe da realidade. “A maturidade dos meus quarenta anos me mostraram a ficar feliz com as coisas pequenas, com os gestos pequenos, com a delicadeza das coisas.”

Xisto Siman. Foto: Lincoln Zabrietti Entrevista com Xisto Siman. Foto: Lincoln ZabriettiNão sonha mais em ter uma casa gigante com uma piscina em um BUM! que aconteceria de repente. Prefere ter os pés no chão, chegar ao fim do ano e ver que tem um dinheirinho sobrando na conta bancária e decidir fazer alguma coisa. “Na verdade a gente quer ter uma sede própria. A gente paga R$ 2.200,00 por mês aqui na sede do Circovolante. É um tanto caro. O mercado imobiliário marianense é muito complicado”. Também tenta executar os trabalhos que começou em sua outra banda, “Angu, feijão e couve”, onde tinha projetos para serem lançados e que, com o fim da banda, teve que adiar.

Xisto conta que não costuma se arrepender do que faz. “Aprendi a amargar menos, o que passou, passou e pronto acabou. O que é bom a gente guarda. Pelo menos na teoria, não é gente?”.

Mas o feitiço também virou contra o feiticeiro. Quando perguntado sobre o que gostava de fazer nas horas de lazer, Xisto começou: “Ouvir música, ficar em casa, desenhar, pintar…” até que João perguntou por que ele estava mentindo. “Vocês são da igreja? Ele gosta é de tomar ‘umazinha’”. Até que Xisto emendou tentando escapar da furada em que se metera: “Claro, tudo isso acompanhado de um bom vinho tinto”. O que não adiantou, pois seu amigo disse que além de mentiroso, era esnobe. “Nem para ser uma cerveja ou uma cachacinha”?

Além de Xisto e João, o Circovolante é composto por Paulinho Santana  (som e cortejo) que trabalha com Xisto desde 1991, Eliane Sandi (encontro de palhaços e alguns espetáculos), Paulinha Ferreira (espaço, secretaria e projetos) e as crianças Iolanda e Mariana (uma filha do Paulinho e outra do João) que participam de vez em quando. “Quando falamos que somos palhaços, todos riem. Todo mundo já pensa no nariz, na máscara. O nosso trabalho não tem mascara, usamos o ridículo através das ações, misturamos o sério com o cômico e o inesperado”.

“As pessoas não entendem muito bem o oficio do artista em geral. Não entendem o processo de construção e tudo mais. Acham que só fazemos isso da vida e não fazem idéia do tempo que gastamos para construir um espetáculo. Principalmente no teatro onde não se tem um produto como nos filmes e novelas. As pessoas assistem à peça e pronto”. Explica que em alguns ensaios gastam uma hora para treinar um minuto do produto final, pois requer técnica.

Para tentar desconstruir a idéia de que o artista é um atoa, o Circovolante recebe a visita de escolas da região onde eles tentam passar para as pessoas como funciona o trabalho do circo como um todo. “Mostramos o escritório, as contas que temos para pagar, as apresentações que têm para fazer, a quantidade de roupas e o trabalho que dá para fazê-las”.

Depois de ter um único emprego em 1989, que durou 45 dias, o teatro tomou conta de sua vida. “Hoje a abrangência do nosso trabalho é muito pulverizada. Nossa participação na rede de cultura de mariana é bastante expansiva.. Como por exemplo, no Circovolante – Encontro Internacional de Palhaços, a comunidade fica feliz, se diverte. Eles sabem que em qualquer momento pode acontecer alguma coisa”.

Na relação com os colegas de trabalho, Xisto diz não ser uma relação calma. “De perto ninguém é normal. Às vezes gritamos e brigamos um com o outro, mas no fim das contas tudo acaba bem. Somos adultos e nos respeitamos”. Afirma ainda que João o aguenta muito mais do que o contrário.

“Recebi um cartão de aniversário que dizia: ‘Amizade é um amor que não morre’. Não discordo muito. Quando alguém te faz alguma coisa que você fica puto, pode existir uma raiva da pessoa, mas ainda sim existe o amor que você sentia por ela. Quando gosto de alguém, gosto de verdade!”.

Apesar de dar muito valor as suas amizades, Xisto diz que na maior parte do tempo prefere ficar sozinho. Afinal, como dizia sua escritora favorita, “que minha solidão me sirva de companhia”.

José Pedro Bezerra e Nathália Barreto - Estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto

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