Ela não anda, ela desfila

Flávio Ernani da Costa

SONY DSC Entrevista com Marli Elias, ex-funcionária da UFOP (ICSA e ICHS). Foto: Flávio Ernani da CostaVaidosa, Marli Elias Veisac cuida da aparência diariamente. Os cabelos loiros, penteados ao estilo Gisele Bündchen – lisos, mas com as pontas cacheadas, não mostram nenhum fio fora do lugar na cabeça da jovem senhora. O cuidado com o visual é inspirado pelo filme predileto, “Uma linda mulher” (Pretty Woman). Assistiu à comédia romântica, estrelada por Julia Roberts, inúmeras vezes; adora a versatilidade do figurino. Marli preocupa-se com as roupas que veste, gosta de estar sempre bem arrumada, calça combinando com a sandália, combinando com os acessórios, combinando com a blusa que combina com os olhos azuis. Mas ela combina mesmo é com a gente. Eu explico… Marli trabalhou por mais de três décadas como secretária, na UFOP. Os últimos anos foram dedicados a auxiliar aos alunos do ICSA nos processos burocráticos (mas não só…). Sempre com um pote cheio de balas em cima da mesa, atendia a todos com muita atenção.

Sento-me em um sofá espaçoso e confortável escolhido por ela após alguns meses “namorando ele pela vitrine”. Irei entrevistá-la. Ela escolhe a canção We’ve Only Just Begun (Estamos apenas começando), da dupla Carpenters, para embalar suas falas ao dizer quem é, o que viveu, o que espera do futuro e as esperanças sobre si mesma.

Marli tem medo do que vê e daquilo que os olhos não conseguem enxergar. Teve medo da enchente que houve em Mariana, em janeiro de 1995. A casa ficou inundada e ela perdeu tudo: cama, colchões, sofá, geladeira, fogão. Tudo. Com os filhos ainda pequenos, ela temeu não conseguir arrumar a casa após os estragos. Mas a família a ajudou dando alguns eletrodomésticos e apoio.

Também tem medo de se perder e ninguém a encontrar, como quase aconteceu na viagem de lua de mel, fato este que já faz mais de trinta anos. Casada há três décadas “com o mesmo marido” – enfatiza, Marli tem muitas histórias vividas com Mário, seu esposo, amigo, companheiro, confidente. São tantos os adjetivos que ela tem em mente e para não se cansar, suspira. Um instante antagônico, em que se opõem, mas se misturam ternura e intensidade, alegrias e tristezas, vitórias e derrotas, saúde e doença. A promessa feita no altar da igreja das Mercês, em Mariana, no dia 30 de outubro de 1982, ainda perdura. Até que a morte os separe.

Mas vamos à história, Mário dirigia o fusca azul do casal, rumo a Catas Altas, interior de Minas Gerais. Lá eles iriam ficar por alguns dias, na Pousada do Caraça. A noite de núpcias foi em Ouro Preto, na casa onde seria o lar do casal, mas como queriam um lugar mais romântico saíram logo pela manhã para a o Caraça. Respirar ar puro, ir aonde ninguém os incomodasse, estar finalmente a sós. Era tudo o que os recém-casados queriam. Não contavam, porém, que não seria bem assim. Janela do carro aberta, cabelos ao vento, à época Marli fumava.

– Caíram cinzas de cigarro no meu vestido, e na hora em que Mário foi me ajudar a limpar acabou não vendo a curva. Foi questão de segundos e estávamos lá, no meio da mata. O carro ficou preso, não tínhamos como tirá-lo daquele lugar. Estávamos a alguns quilômetros de Mariana.

O noivo, provando todo seu amor, andou, andou e andou até chegar a uma empresa próxima ao local e pedir ajuda. Algumas horas de aflição. Uma pessoa que os conhecia passava de carro pelo local e tratou de avisar aos familiares dela, que foram buscá-los. Resolveram seguir com a viagem, agora Lívio, irmão de Marli, seria o motorista e os levaria para o tão esperado retiro. No caminho havia um rio e na hora de atravessá-lo o carro encheu de água. As roupas nas malas ficaram completamente molhadas. Nem por isso impediu que chegassem ao lugar tão almejado.

– No dia seguinte o padre rezou uma missa para nós, lá na Igreja do Caraça. Acho ser esta a explicação para estarmos juntos há tanto tempo. Na alegria ou na tristeza.

Primeira cesariana dentre os filhos de dona Lívia, Marli foi concebida em Ponte Nova porque em Acaiaca, cidade onde os pais moravam, não tinha hospital. Quarta filha na prole, entre os sete, do casal Geraldo e Lívia, Marli mudou-se para Mariana aos dez anos com a mãe. Na década de 50 era comum existirem colégios religiosos, muitos sendo internatos. Uma de suas irmãs morava em um destes, mas não conseguiu se adaptar, por problemas de saúde. Foi necessário que a mãe morasse em Mariana para que as crianças pudessem estudar.

Aos 14 anos começou a trabalhar na casa lotérica do pai. Trabalhava e estudava. Formou-se como técnica em secretariado, no final de 77, em seguida fez prova para o curso de Educação Física na Federal de Viçosa. Mas a menina “inocente, pura e besta” não se alimentou antes de fazer o teste físico e desmaiou. Reprovada, retornou à Mariana. No início do ano seguinte começou a trabalhar na Universidade Federal de Ouro Preto, onde permaneceu por 34 anos.

– Aceita suco de manga com hortelã?

O calor intenso é amenizado pela bebida gelada. O telefone toca.

– Alô. É Marli. Quem? Nossa! Não estou ouvindo, este telefone está horrível. Ah, Biela, Cravo e Canela!

Sem se perder quando o assunto é trabalho, prossegue relatando o percurso profissional. Da Escola de Engenharia ao Instituto de Ciências Sociais e Aplicadas, ela teve ascensão na carreira. “Entrei como secretária, mas o José Sarney beneficiou uma de suas secretárias no Senado Federal, abrindo espaço para que outras nomeações fossem feitas, a partir daí surgiu a oportunidade de ser recolocada como secretária executiva”. Mas para isso ela formou-se com curso superior em Secretariado Executivo e posteriormente Pós-graduação em Gestão Pública.

Sempre foi atenta e solicita às necessidades dos alunos. Quando estes precisavam fazer ajuste de matrícula recorriam a ela, “eram filas imensas, ficava com pena de todos”. Para compensar o desgaste físico pelas longas horas à espera, oferecia uma bala a cada um deles, a quem considera como filhos. Alguns a procuraram depois de terem se formado. Esposa, marido, filhos, carro, notícias da vida que seguiu depois da faculdade, mostravam tudo a ela, sempre mantendo contato.
Insistente, o telefone toca.

– E os bem-casados?

É Marina, sua filha. Vai casar em maio. Apesar de ter aposentado, Marli não descansa, é secretária executiva da filha. Com frequência vai a Belo Horizonte ajudar na escolha dos doces, caixinhas de bombons, buffets, decoração, vestido. Enfim, uma infinidade de coisas que deixam sua mente ocupada, sem se dar conta de que após o casamento ela não terá nada para fazer além das aulas de Pilates para aliviar as dores nas costas, causadas pela hérnia de disco. Trabalhava a maior parte do tempo sentada, poucas vezes se preocupou com a postura. O período que deveria ser de descanso, após tantos anos de trabalho, será também de dores.

Dores no corpo. Dores na alma. Culpas. Muitas culpas ela atribui a si mesma. “Perfeccionista e enjoada”, define. Ela odeia quando Mário deixa as coisas fora do lugar, talvez ele não faça mais isso porque as coisas estão todas milimetricamente ordenadas dentro de casa. Com Vanise, a secretária do lar, é como essas das novelas em que se alfinetam o dia inteiro. “Vanise faz isso… Vanise faz aquilo. Já vou, Marli, já vou”, responde Vanise.

Ela é habilitada para dirigir, mas não o faz, tem medo. Talvez trauma dos acidentes que sofreu. Aos 53 anos, ela se considera religiosa, assim segue a vida intercedendo sempre pelos familiares e amigos, e nos momentos difíceis não hesita em recorrer ao santo de devoção. “Valei-me, São Geraldo!”. Talvez até nos momentos em que os filhos Guilherme, Marina e Lívia a estressam. Valei-me, Valei-me.

– Aceita uma bala?

Assim, entendo que chegou ao fim da conversa. Início de uma vida de saudades. Dos colegas de trabalho, das amizades construídas, dos filhos de ex-alunos que ela não irá conhecer, da necessidade de ser pontual. E o que será dos novos alunos, sem a sua gentileza, tampouco balas? Por sorte, resta-me uma das últimas doçuras.

– Aceito.

Flávio Ernani da Costa - Estudante do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto

7 comentários em Ela não anda, ela desfila

  1. Marli ELias Veisac disse:

    Estou muito emotiva hoje, sensível mesmo, aí recebo esta linda homenagem. Só choro!!!! Obrigada pelo carinho de vocês. Flávio, amei. Já antevejo o brilhantismo de seu jornalismo. O tempo mostrará! Obrigada.

  2. Flávio Ernani disse:

    Marli, muito obrigado pela gentileza em estar disposta a contar um pouco mais sobre você. Agradeço também à Vanise pelos deliciosos e refrescantes sucos. Além, é claro, da simpatia da lindeza que é a Lola. Grande abraço.

  3. Maria José Menezes disse:

    ah, grande amiga Marli. trabalhei com ela um bom período na escola de minas. profissionalismo e ética são a marca dela. foi um período mto bom que passamos naquela velha escola de minas da praça tiradentes, mas valeu a pena pelo coleguismo e companheirismo, pelo aprendizado e pela amizade tão querida. um grande abraço Marli, você merece toda esta dedicação.

  4. Gislene disse:

    Que lindo!!! adorei saber um pouco mais desta entrevistada….

  5. LUIZA MARIA disse:

    Realmente uma descrição verdadeira,nosso convívio foi pequeno,mas ela mereceu essa homenagem.Parabéns…

  6. Deisa Chamahum Chaves disse:

    É tudo isso, mesmo! Trabalhei com a Marli, por muitos anos, no ICHS. E a lembrança que fica é do ensolarado sorriso, da postura acolhedora, da dedicação e competência inquestionáveis. Querida, merecidamente, por professores, estudantes e alunos, uma profissional que engrandecs a Universidade e uma pessoa que enriquece os que se aproximam.Parabéns ao Flavio, pela oportuna e justa homenagem.Parabéns à Marli, pela vida em flor!

  7. Pablo Silva disse:

    É sério, fiquei triste quando não vi a Marli na sala “dela”.

Deixe uma resposta para LUIZA MARIA Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *