Entre Linhas

Lorena Silva e Maysa Souza

Dona Maria. Foto: Lorena Silva Entrevista com Dona Maria, bordadeira do Clube das Mães. Foto: Lorena Silva.Um bordado longo e colorido, é essa a vida de Dona Maria. As agulhas são manuseadas pela artesã. As linhas, de variadas cores, representam o marido, os filhos as amigas do Clube das Mães e todos em sua volta. E Dona Maria borda pacientemente. Qualquer erro ou nó é possível de ser desfeito por ela com a mesma serenidade de sempre. E este bordado acaba, mas logo ela recomeça outro, porque nunca falta vontade de aprender e de fazer o que mais gosta. E ela sabe como fazer.

Entre uma conversa tímida, casual e descompromissada, só um assunto faz a serenidade de Dona Maria do Carmo Teixeira desaparecer: sua infância. Desde pequena, convivendo com pouco recurso financeiro e uma mãe que sofria do mal de Chagas, Dona Maria, hoje com 58 anos, morou no distrito de Águas Claras até seus 17. O excessivo cuidado que a mãe necessitava impediu que tivesse uma infância comum ás crianças de sua idade. Com a responsabilidade de cuidar da família e da casa, ela brincava de ser gente grande mesmo.

Sem estudo, já que frequentou somente até a terceira série, e com seu tempo livre de menina que não tem o que brincar, despretensiosamente começou a manusear as linhas de costura da irmã mais velha. As mãos uniram as linhas, entrelaçando-as até que se fez um ponto. Essas mesmas mãos evidenciaram um talento e por isso a irmã não pode deixar de ensinar-lhe o crochê. Aos 8 anos, Maria do Carmo entrou para o curso de tricot e a partir de então os bordados e o artesanato tornaram-se seu ofício.

Em meio ao entusiasmo de ter descoberto sua facilidade em lidar com agulhas e linhas, ela teve que enfrentar, aos 12 anos de idade, o maior baque de sua infância, quando, depois de anos de sofrimento, sua mãe, Carmelita Vieira, faleceu. Carros ainda eram uma raridade e um luxo que poucos possuíam e como o acesso a fazenda da família era difícil, a mãe foi carregada por uma padiola, uma espécie de maca improvisada, até o município mais próximo, de onde seguiria para o hospital na capital mineira. Carmelita foi e não voltou mais. Dona Maria, conta triste, que não chegou a velar o corpo de sua mãe, pois ele foi enterrado em algum cemitério de Belo Horizonte e só depois de algum tempo a família foi informada.

Após a morte da mãe, sua vivência na fazenda do avô, entre a vida calma e o hábito de fabricar cachaças e rapaduras, durou mais cinco anos. Depois da venda do local, o pai, Solon Teixeira, levou os filhos para morarem em Mariana. O fato foi motivo de contentamento para ela, que, de imediato se acostumou com a cidade. Além de enfatizar que gosta da cidade onde reside, ainda diz preferir Mariana a vizinha, Ouro Preto, por ser mais arejada, plana, não ser escorregadia e também por não ter um clima tão frio.

Mudar-se para Mariana foi um recomeço na vida de Dona Maria. A menina que sempre viveu em meio ao verde da fazenda, havia chegado à cidade e começava a descobrir as delícias e os prazeres da fase da adolescência. Foi então que Maria começou a namorar José Emilio, o cabelereiro mais conhecido como Zé Barbeiro. Aos 24 anos eles se casaram e formaram a sua própria família que se completou com a chegada dos três filhos do casal: Rodrigo, Renata e Rhelman.

Há 12 anos a vida da artesã começou a ganhar um novo sentido. A mesma mulher, que por motivos alheios, não conseguira estudar, passou a ensinar o que a vida lhe dera como ofício. Em seu bairro, Colina, a também artesã, Dona Arlete, fundou o Clube das Mães. A entidade, que não possui fins lucrativos, somente deseja ensinar aos interessados a arte dos bordados, tricot, crochê, ponto cruz, macramê, tapetes, almofadas, pesos de porta de arraiolo, trabalhos artesanais com jornal e pinturas.

Cinco reais. É o preço que a entidade cobra pelas aulas, isso caso o aluno tenha condições financeiras de pagá-lo. Se não tiver, as aulas são gratuitas e as mães receberão seus alunos com a mesma atenção. As mãos que destacam por coserem pontos tão delicados com todo o cuidado cuidam também do dinheiro arrecado pelo grupo. Dona Maria do Carmo é a tesoureira do Clube, que para se manter vende as peças produzidas durante as aulas.

O contato diário com o artesanato e a paixão por seu ofício fez com que a artesã, em sociedade com a cunhada, montasse um pequeno estabelecimento na Praça Gomes Freire, a mais movimentada da cidade, e preencheu o famoso “Jardim” com as peças produzidas pela sua família. Além disso, aos domingos, a Praça da Sé abriga o Clube das Mães. Suas integrantes montam uma barraca ao lado da Catedral e lá passam o dia divulgando seu trabalho e o artesanato produzido dentro das montanhas das Minas Gerais, em meio ás obras barrocas que destacam a cidade de Mariana.

A paixão pelo que faz é evidente a cada vez que se conversa com Dona Maria do Carmo. A vontade de saber cada vez mais é evidente na senhora de 58 anos, que ainda quer aprender a fazer bordados como se fazia antigamente, em cursos oferecidos pelo Serviço Social da Indústria (SESI). A menina que cresceu em meio às dificuldades familiares, a adolescente que teve que aprender a viver sem a mãe e a adulta com a responsabilidade de cuidar da família, se mesclam nessa senhora que aprendeu sozinha a viver.

O tecer da vida constrói tudo. A agulha é como a família, o principal apoio nessa arte de tecer e as linhas, de variadas cores e texturas, são como os anos que se passam. As mãos que cuidadosamente entrelaçam linha e agulha, num ir e vir de pontos, são como o destino que decide que se tome certo caminho e não outro. No fim, os pontos em perfeita harmonia resultam num pano de prato, uma toalha ou até mesmo em um tapete. Dona Maria do Carmo e os pontos que teceu a sua vida são pontos que se juntaram e resultaram na sua experiência.

Lorena Silva e Maysa Souza - Estudantes do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto

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