Guiomar só quer o Belo

Lázaro Borges

O Barroco é o estilo artístico que aflorou na Europa, em especial na Itália, nos séculos XVII e XVIII, e, ao contrário do Renascimento, se caracterizou pela abundância e esmero de detalhes. Em Ouro Preto, primeira cidade brasileira Patrimônio da Humanidade, localizada no interior de Minas Gerais, fundada em 1711, no auge do ciclo aurífero do Brasil, há um vasto número de obras artísticas e arquitetônicas influenciadas pelo estilo. Guiomar de Grammont é uma escritora pujante desta cidade, prêmio Casa de Las Américas de 1993, e que se encontra em sintonia com a totalidade destes elementos estéticos.

Guiomar de Grammont. Foto: Lázaro Borges Entrevista com Guiomar de Grammont. Foto: Lázaro BorgesGuiomar também é uma mulher fruto de rupturas e paradoxos. Desde nova sua família é abalada por deslocamentos, semelhantes aos fatalismos da prosa de Nelson Rodrigues. Seu pai, fora um goiano, que veio a Ouro Preto estudar Engenharia na tradicionalíssima Escola de Minas de Ouro Preto. Aqui ele se apaixonou por uma ouropretana de família simples que cursava a Escola de Farmácia de Ouro Preto, casaram, foram para Goiás, depois para Brasília, e tiveram seis filhos, até que ditadura vitimasse a vida do patriarca em 1975, num episódio que apresenta muita semelhança com a morte de Vladimir Herzog.

Portanto, Guiomar de Grammont nasceu em Ouro Preto e cresceu em Brasília, mas o maior paradoxo da sua infância se localiza entre seus avôs paternos, os liberais de Goiás, e os avós maternos, com a típica prudência retraída dos mineiros de Ouro Preto. Da avó de Ouro Preto, uma fervorosa mineira, ela recebeu o zelo e o carinho pelas coisas da vida cotidiana, a tenacidade do trabalho do dia-a-dia. O avô era um homem humilde, silencioso, porém comunista, ateu, ex-combatente de Coluna Prestes. Vivia seus últimos dias desencantado com a condição humana embora tivesse notória contemplação pela beleza dessa vida e pudesse ser bastante meigo e espontâneo em sua afetividade.

Dos parentes de Goiás vem a inspiração e o pendor intelectual. Seu nome é o mesmo de sua avó, poetisa e intelectual do estado de Goiás, responsável por fundar a primeira Universidade do Estado. Era uma mulher libertária, de um dinamismo intelectual e social incrível e que foi muito bem assimilado pela jovem Guiomar. Seu avô foi político, ex-governador de Goiás pela antiga UDN. Foi o pai de Guiomar, porém, o responsável por incentivar o talento literário da filha, lendo seus primeiros poemas e textos, que já pipocavam com grande fluência desde os tenros sete anos de idade.

Guiomar de Grammont. Foto: Lázaro Borges Entrevista com Guiomar de Grammont. Foto: Lázaro BorgesCom a morte de seu pai, sua mãe enfrenta dificuldades para criar os filhos, e então a família decide finalmente entre idas e vindas a Ouro Preto, se estabelecer por aqui definitivamente. É selado o destino naquela cidade que tanto a encantava com as suas belezas barrocas, mas também a espantava com suas lendas e macabras histórias noturnas de becos e vielas.

Em Ouro Preto, ela estudou no Colégio Arquidiocesano, tradicional instituição da Igreja Católica na cidade. Sempre foi uma jovem muito tímida, o que serviu de motivação para escrever, uma forma de vencer essa barreira e todas as fatalidades que ocorreram na sua família, o que resultou numa estética herética, de inspiração rodriguiana, erótica, tratando do inconfessável.

Aos 16 anos Guiomar tem outro ponto de inflexão na sua vida, ela fica grávida e acontece o consequente casamento com Paulo, um estudante de Engenharia da Escola de Minas, e que também era professor de química no Arquidiocesano. Nasce então sua primeira filha, Raíssa. Foi também em 1980 que Guiomar de Grammont fez vestibular e ingressou, em 1981, na primeira turma do curso de História do Instituto de Ciências Humanas e Sociais da Universidade Federal de Ouro Preto. A segunda filha, Maíra, nasce dois anos depois, em 1983.

Apesar de ter se formado em História, Guiomar de Grammont seguiu o campo da Estética, ou da filosofia da arte, ou como ela mesmo define “a ordem das coisas superficiais, inúteis”. Guiomar tem sua dissertação de mestrado em filosofia, defendida na Universidade Federal de Minas Gerais em 1998, com referência a Sooren Kieekgard, filósofo que ela define como um pensador não dogmático. Guiomar é capaz de transcender apenas com um telhado de um casarão barroco de Ouro Preto, ou com uma música. Essa é a sua receita para amenizar a existência nesse mundo deslocado. Beleza, em sua concepção, engloba o belo, o justo e o verdadeiro, como concebiam os gregos da antiguidade clássica.

Durante praticamente todos os anos 80 Guiomar atuou como professora de Ensino Médio das redes pública e privada das cidades de Mariana e Ouro Preto. No início dos anos 90 ela começa a ministrar aulas em uma faculdade privada em Governador Valadares. Foi numa dessas aulas que ela teve um sangramento quase fatal de seu terceiro filho em gestação, Pedro.

Em 1993, ela finalmente retorna à instituição onde fizera sua graduação, a UFOP, só que agora como professora dos cursos de Artes e Filosofia do Instituto de Filosofia, Artes e Cultura, localizado num casarão do centro de Ouro Preto, nas imediações da Praça Tiradentes. Mas antes ela tem Pedro, seu primeiro e único menino. Em 1993 ela recebe o prêmio Casa de Las Americas por seu livro de contos, prêmio cuja banca contou com os célebres críticos literários Davi Arrigucci Junior e Silviano Santiago.

Em 1995 é finalmente efetivada, por concurso público, como professora, e seu engajamento na Instituição, que gerou diversos eventos, colóquios, e outros, acaba por reduzir um pouco o fôlego do seu furor criativo para a literatura. Nesse período, ela é responsável por coordenar o curso de especialização em Estética Barroca, função que exerce até hoje.

Porém a vida aguardaria talvez aquela que viria a ser a maior ruptura de sua vida, a desconstrução do maior mito de Ouro Preto, o Aleijadinho.

Quando Guiomar entrou no Doutorado do Programa de Pós-Graduação em Literatura Brasileira da Universidade de São Paulo, ela tinha em mente o projeto de um trabalho teórico sobre o neobarroco nos discursos de massa. Foi com esse projeto que ela defendeu sua qualificação e foi fazer estágio na École des Hautes Études en Sciences Sociales, sob a orientação de Roger Chartier, grande nome da historiografia cultural.

A vida na França durou frutíferos 18 meses. Junto de Guiomar, seguiram os seus três filhos Raíssa, Maíra e Pedro. Paulo, em virtude de uma recente promoção a um cargo de direção na Escola Técnica Federal de Ouro Preto teve que permanecer no Brasil. Guiomar afirma que este foi um período vital para o fortalecimento dos laços de fraternidade entre os seus rebentos, como forma de resistência e enfrentamento da xenofobia latente na Europa.

Foi nesse período também que Guiomar ampliou seu já vasto repertório cultural e teórico. Nesse tempo, ela fez amizade com vários historiadores de diversos países que se encontravam em Paris. A mais destacada foi sua relação com o português Rui Tavares, com quem ela relembra ter virado noites afora em conversas riquíssimas, e hoje é um dos mais importantes historiadores de Portugal e um dos mais jovens Deputados do Parlamento Europeu. A vivência na Europa também foi decisiva para despertar o interesse das duas filhas mais velhas pelas Artes Cênicas e pela francofonia. Raíssa hoje é diretora da Aliança Francesa de Ouro Preto, além de ter exercido a função de professora de língua francesa no Departamento de Letras do ICHS.

Mas já de retorno ao Brasil, e faltando apenas oito meses para o fim do prazo de defesa, eis que uma febre, como aquelas de García Márquez, que assolam não o corpo, mas as idéias, toma conta de Guiomar: um surto pedagógico. De uma hora para a outra, ela decide burilar a construção do mito do herói colonial na figura do artífice Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, que teria adornado tantas Igrejas e outras construções com suas pinturas e esculturas ao longo de toda a velha Minas. Não se trata de uma biografia, e sim um estudo da representação, como diz o seu orientador da EHESS, o francês Roger Chartier.

Durante meses Guiomar lê e escreve com uma fé difícil de se descrever. Seu estudo viria a ser notadamente muito inspirado pelos estudos da História Cultural Contemporânea de Roger Chartier. No meio do processo ela é assolada por uma fibromialgia que lhe impede os movimentos e a acama. Mesmo assim ela continua a escrever com o auxílio de uma digitadora, uma amiga, na época, aluna do curso de História. Com uma prorrogação de seis meses por conta da moléstia que a assolou no processo, ela defende sua tese intitulada “Aleijadinho e o Aeroplano: A Construção do Herói Barroco” em 2002 e é aprovada com Louvor.

Porém a tese passa longos seis anos, esquecida na gaveta e em estantes de pós-graduações de São Paulo, Paris, Belo Horizonte, Ouro Preto e Mariana. Após defender a tese, Guiomar começa a escrever para o teatro. Seu primeiro texto, adaptação do conto “O Diário de Medeia”, foi apresentado inúmeras vezes em Minas, e trata de uma mulher de um comportamento inspirado na mítica Medeia nos dias de hoje. Passa a escrever também para projetos teatrais do Galpão Cine Horto de Belo Horizonte, e tem seu maior sucesso de público com texto inspirado na figura de Dona Olímpia Cotta, uma mulher da elite ouropretana que, ao exacerbar sua verve pela verdade nas relações sociais, é estigmatizada pela sociedade como louca e cai em desgraça.

Em 2008, a editora Civilização Brasileira decide publicar sua tese transformada em livro. É aí que Guiomar estremece o imaginário coletivo da Identidade Mineira. Sua foto é publicada como se fosse de uma criminosa procurada na capa de um grande jornal da capital. Mas o que ela mais mexeu mesmo foi com o bolso dos colecionadores de Arte Sacra e Barroca, ao afirmar que o conceito de autoria e estilo, tão caro à existência, reprodução e permanência deste mercado, era inconcebível na época do artífice.

Guiomar de Grammont. Foto: Lázaro Borges Entrevista com Guiomar de Grammont. Foto: Lázaro BorgesParece-me que a Literatura da Guiomar é marcada por uma unicidade ética no campo da contestação. O seu estudo sobre Aleijadinho se assemelha no espírito, coragem e inovação ao dos historiadores José Murilo de Carvalho e Junia Furtado, e que também burilaram os mitos coloniais de Tiradentes e Xica da Silva, respectivamente. Mas essa contestação parece ter como intenção a decomposição do véu do mítico, para assim desvelar a verdadeira beleza, o que aparece também ao longo de sua literatura, e notoriamente no seu conto Sudário, de 2008. Nisso se encontra uma forma de luta e resistência contra a opressão do ordenamento social causado pelos mitos, mas há de se convir também, que Beleza e Verdade talvez sejam as duas coisas mais caras na hierarquia de valores de Guiomar de Grammont.

O prédio do IFAC, onde trabalha e ministra suas aulas, fica em um casarão de uma dessas ruas tortas e vertiginosas de Ouro Preto. Sua sala de diretoria é vasta, arejada, e adornada com quadros de diversos estilos, e de uma vista para outros telhados coloniais, como o do Teatro Casa da Ópera, o mais antigo em funcionamento da América Latina, que tanto encantam a Guiomar. Senta-se confortavelmente em sua cadeira, depois de ter despachado suas atribuições burocráticas com a sua secretária Luciana. E começa a falar com a sua fala calma, envolvente, interminável, cheia de rodeios, idas e vindas, mas incansável para seu interlocutor, como a sua prosa. Apesar do sobrepujante apreço estético, demonstra muita sensibilidade e lucidez, e também pouca vaidade estética. Gosta de manter o sorriso.

Em 2004, Guiomar de Grammont é eleita pelos pares de sua comunidade como Diretora do IFAC/UFOP. Começa uma nova fase de engajamento seu com a Universidade, agora visando tornar a Instituição um centro cosmopolita de irradiação cultural. Começa, a convite do pró-reitor de Extensão Nuno Coelho e, depois, com a ajuda do de Fábio Faversani, uma espécie de Carlos Magno da UFOP, professor de história antiga e medieval do ICHS, que assume a pró-reitoria um ano depois, a reviver os saudosos Festivais de Inverno de Ouro Preto, agora, feitos pela Universidade e Prefeitura da cidade. No passado, os Festivais eram organizados pela UFMG, que transferiu o evento para a cidade de Diamantina. Construído, inicialmente, com o nome de Fórum das Artes, pelo professor Nuno Coelho e Guiomar de Grammont, o Festival de Inverno voltou a ser o maior evento da vida cosmopolita interiorana de Ouro Preto.

De um intelectual ouropretano, espera-se que ele seja residente de uma casa dentro dos mágicos limites do centro histórico, de preferência um casarão pertencente a algum barão ou aristocrata, como foi o caso de Carlos Scliar, Guignard, João Bosco, e o hoje residente Guilherme Mansur. Mas Guiomar não tem medo mesmo da ruptura. Quando sua filha se casou com o maestro ouropretano Francisco de Assis (conhecido como Chiquinho Assis) e nasceu sua primeira neta Aurora, Guiomar e seu esposo Paulo, agora aposentado da Escola Técnica de Ouro Preto, não tiveram receio de ceder a pequena casa no centro para mudar para o novo bairro da Bauxita, construído no entorno do campus da Universidade. Nem por isso o lugar deixa ser menos inspirador com suas vastas áreas ao ar livre, a vista para as montanhas, e o aconchego interno dos pés direito altos e da tradicional comida caseira mineira.

De Paulo, mineiro da cidade de Varginha, no sul do Estado, a quem eu tive oportunidade de conhecer ao visitar sua casa na Bauxita, se desprende que é um homem de muita segurança, a julgar pelo aperto de mão firme, e a postura sempre ereta, com a predominância do peitoral sobre o resto do corpo. Além de professor da antiga ETFOP, Paulo também exerceu a Geologia, e é filiado do Partido Verde de Ouro Preto, se ligando à militância por causas ecológicas pontuais na cidade. Para Guiomar, ele é o parceiro ideal, com seu jeito altamente confiável, sua sensação de segurança transmitida.

A filha do meio, Maíra, formada em Artes Cênicas, agora reside na Cidade do Rio de Janeiro por conta de uma pós-graduação em Artes Cênicas e Música. Ela se destacou ano passado durante o Fórum das Letras por uma performance ao lado do escritor e artista plástico Nuno Ramos, Prêmio Portugal Telecom de Literatura de 2009, e do jornalista, crítico literário e cronista José Castelo, no Teatro Casa da Ópera, o mais antigo em funcionamento da América Latina. Na casa de Guiomar ainda mora Pedro, 19 anos, que ingressou no curso de Jornalismo da UFOP.

A menina dos olhos da escritora Guiomar é o Fórum das Letras de Ouro Preto. Um evento inspirado na Festa Literária Internacional de Paraty, porém, com uma ênfase mais nas idéias e impressões intimistas dos autores convidados para debates. É um evento admirável pela abertura de participação da plateia, por meio de uma programação totalmente gratuita, e do contato que se pode ter com os autores nos becos e tortuosas ruas da cidade.

Toda essa agitação inspirada na velha Guiomar de Grammont de Goiás tem dado cada vez menos tempo para Guiomar produzir sua própria obra. Ela, porém, não se sente de forma nenhuma sufocada. A nova fase de produtora de eventos literários, que inclui Bienais do Livro em Belo Horizonte, Rio de Janeiro, e eventos em Lisboa e Paris, tem dado vazão a seu desejo inconfidente de liberdade.

Ela também segue firme nas suas funções no IFAC. Tanto é que, em 2008, ela foi reconduzida novamente via pleito comunitário, ao cargo de Diretora por mais quatro anos. Ela credita isso à sua capacidade de dialogar com as mais diferentes posições contidas num centro de estudos de pensamento humano e artístico, e ao potencial de criar e realizar grandes desafios.

Guiomar é uma inconteste unicidade de adjetivos arranjados pela desconcertante contradição dos deslocamentos que pode permear uma vida. Com tantas nuances em sua personalidade, apenas com um olhar aproximado, como pedem os entalhes que adornam a Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto, é que se pode observar de perto a beleza transcendente de uma personalidade que só quer viver aquilo que é belo.

Lázaro Borges - Estudante do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto

Um comentário em Guiomar só quer o Belo

  1. Francisco Das Chagas Feitosa disse:

    Sou um participantes do encontros dos marinheiros no sindicato dos Metalúgicos no
    Rio de Janeiro em 26/12/64.
    Gostaria muito contar o que presenciei naqueles dias;tenho certeza que a senhora
    como grande escritora que é,não vai se decepcionar com minha narrativa.
    Estou com 81 anos ,mas com ótima memória.
    moro num sítio em tanguá,RJ .
    Caso haja interesse,por favor,será uma ótima satisfação e prazer da minha parte.

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