Jadir Ambrósio: O maestro da massa

Natália Ambrósio

Jadir Ambrósio. Foto: Natália Ambrósio. Entrevista com Jadir Ambrósio. Foto: Natália Ambrósio.Quando a multidão estrelada reunida no Mineirão entoa o hino oficial do Cruzeiro, não há, entre tantos milhares de torcedores presentes, aquele que não sinta, por um instante sequer enquanto duram aqueles oito linhas uma melodia carregada de pura e doce paixão, um arrepio de emoção.

É assim onde quer que se cante ou execute o hino oficial celeste – em festas, solenidades, nas alegres rodinhas de bar, no descontraído assobio pelas ruas, no despretensioso cantarolar no escritório – que o torcedor cruzeirense compartilha as emoções que o time lhe proporciona. Também através da música que motiva seus craques e embala sonora e orgulhosamente todo o clube; essa música, que transformou o hino oficial do Cruzeiro e se popularizou pelo país inteiro, é o maior orgulho da vida de seu autor, Jadir Ambrósio. A quem podemos chamar de “o maestro da massa”. Dono de uma humildade impressionante e de um contagiante e permanente estado de bom humor, Jadir leva a vida aos seus 88 anos de idade.

Este mineiro de Vespasiano nasceu em 8 de dezembro de 1922 e veio para Belo Horizonte em março de 1926. Músico e compositor, Jadir é dono de um respeitável repertório e autor de alguns sambas notáveis e inéditos ainda, a disposição de intérpretes. Jadir me conta como ele chegou à glória de ser o compositor do hino do clube, que lê sua paixão desde os tempos em que o Cruzeiro se chamava Palestra Itália. Sr. Ambrósio é personalidade conhecida no cenário musical da capital mineira, onde se destacou com o seu trambone em orquestras de bailes e rádio. “O trombone foi o instrumento da minha vida”, afirma o cantor-compositor, que hoje se exercita mais no violão.

Autor de boleros, toadas, forrós, xotes e baiões, é no samba que o compositor mineiro se destaca. “Eu gosto mesmo é de samba, o hino da raça. Mas por circunstâncias outras, fui obrigado a fazer até música sertaneja”.

Funcionário aposentado da Prefeitura de Belo Horizonte, onde prestou serviços de capina e burocracia, Jadir Ambrósio jamais esquece das quermesses da Igreja Santo Afonso, do Bairro Renascença, de Belo Horizonte, onde conheceu uma cantora iniciante que mercaria para sempre sua vida. Recém chegada a Caetanópolis, para trabalhar em uma fábrica de tecidos instalada naquele bairro, Clara Nunes participou de uma espécie de programa de calouros que ele comandava com seu violão no adro da igreja, toda vez que havia festas de barraquinhas. “Quando eu vi, ela estava cantando pela primeira vez percebi que estava diante de uma celebridade” recorda Jadir que, imediatamente apresentou Clara Nunes aos radialistas da época. Rainha da Rádio Inconfidência que comemorava então 25 anos de fundação, ela gravaria o samba “Vida Cruel”, de Jadir e Wilson Miranda, em um LP comemorativo à data.

“Foi aí que começou a surgir a exuberante Clara Nunes que todos conhecem”, orgulha-se, admitindo que Clara tinha uma facilidade incomum de expressão, aprendizado e responsabilidade. “Por isso uma vitoriosa” justifica o padrinho, que também acompanhou o início da carreira de artistas como Agnaldo Timóteo, Silvio Aleixo e Márcio José,contemporâneos de Clara Nunes em Belo Horizonte.

Criado no bairro da Cachoeirinha, Jadir Ambrósio tem saudade de muitas outras imagens da BH que viu crescer como boêmio, músico e compositor. Com mais de 100 músicas compostas, Jadir lembra sobre a Belo Horizonte antiga, cantada por ele e afirma que isso é o que ele mais gosta de fazer. Canhoto, vai dedilhando o violão “de cabeça pra baixo” enquanto conta histórias sobre sua entrada no Conservatório Mineiro de Música, sua vida de boemia na Lagoinha, os preconceitos que sofreu por ser negro e a convivência que teve com o então presidente Juscelino Kubitchek.

Jadir conta que começou na música clássica, cursando o Conservatório de Mineiro de Música e foi contemporâneo de muitos que estão brilhando. Não considera sua mudança de estilo musical de clássico para o popular como abandono, considera apenas que teve uma melhor repercussão no popular. Começou compondo canções sertanejas e gravou seu primeiro disco pela Columbia. Eram duas músicas gravadas pela dupla Caxangá e Sanica, que na época era equivalente ao que é hoje Chitãozinho & Xororó. Sair de Belo Horizonte para fazer carreira nunca esteve nos planos, apesar de viajar muito, Jadir sempre voltava. Entende que a música não foi feita pra ganhar dinheiro, que isso é só uma consequência e por isso sempre teve outro emprego. Ele trabalhava na prefeitura, onde entrou desde criança como “ferrinho”, aquele que capinava as ruas. Foi lá que começou a estudar música e foi tocar Piston na banda Santa Cecília, da Lagoinha, cujo maestro Luciano Vasques, uma pessoa muito importante na vida musical da cidade.

Sobre sua amizade com o presidente JK, Jadir conta que fizeram várias serestas juntos, viajaram muito e era uma amizade muito valorizada. Também era amigo de Geraldo Ribeiro, o motorista de JK que morreu com ele no acidente. Jadir considera Juscelino um homem espetacular. “Um dia fomos ao Rio de Janeiro e foi a primeira vez que eu vi o mar. Acho que o doutor Juscelino ficou no Copacabana Palace, não me lembro bem, mas eu não pude ficar junto, porque preto não entrava nesses hotéis. Então eu fiquei num hotel na Praça da República, junto com o Geraldo Ribeiro. Me lembro de ter ido a missa e a exposições com o JK, na época em que Dona Sara estava grávida da Márcia”.

Jadir sofreu muito preconceito e conta que naquela época Juscelino fez uma lei obrigando todo colégio a ter um aluno “preto”, e é justamente nessa época que começa a sua ascensão. Como era um “preto bem comportado”, como ele mesmo diz, foi convidado pelo doutor Godofredo, secretário do Conservatório Mineiro de Música para estudar lá e assim a lei estava sendo cumprida. E foi assim que Jadir Ambrósio entrou para a universidade de música sem fazer vestibular. No Conservatório, Jadir estudou por quatro anos e continuou a trabalhar na prefeitura com muito apoio de Oswaldo Nobre, chefe de gabinete, que Jadir considera seu padrinho.  A vida boêmia que Jadir levava era tida por ele como maravilhosa e saudável. Jadir se lembra dos bares Montanhês e Chanseclair.

Como não era da elite, a lagoinha era seu lugar, seus cartões de visita de BH. Ali aconteciam as batalhas de confetes e existiam os melhores bares. Em homenagem Jadir fez um samba assim: “a maior tristeza minha; foi quando acabaram com a praça da Lagoinha; ali eu vivi minha mocidade; por isso hoje recordo com saudade; quem não se lembra do Cinema Paissandu; da pensão da Dona Rosa; do boteco do Seu João; onde os poetas e sambistas se reuniam; tinha muita cerveja e cachaça; muito amor, muita paixão; mas droga não havia não…”. Também cantando Jadir fala sobre sua inspiração para compor “existe um cantinho aqui perto da cidade; que é um ninho de amor e de felicidade; é uma vila modesta; muita gente pobre mora lá porém lugar mais feliz que aquela vila não há; eu me refiro ao Morro da Pedreira; onde fazer um samba não é profissão; é uma brincadeira; onde o poeta recebe inspiração; no ar que respira; no vento que passa balançando o zinco do seu barracão”.

Hoje já aposentado, está com a família bem criada, cinco filhos e sete netos e uma esposa “maravilhosa” de quem se orgulha muito. Quando fala dela Jadir diz que todo poeta precisa de uma mulher forte, para não acabar morrendo na miséria, num banco de jardim. Hoje Jadir é corretor de imóveis apenas para “não ficar sem fazer nada”.

O sambista e compositor Jadir ressalta que é difícil realizar tudo na vida, eterna sucessão de lutas, afinal, se há obstáculos, não há vitórias nem alegrias. Budista há 20 anos Jadir é praticante do budismo, que tem uma filosofia de vida que proclama a independência completa das pessoas, em todos os sentidos. Sempre declamando máximas, ele ainda fala que “cada um faz a sua vida, nós é que determinamos nossa história usando o bom senso e respeitando a lei de causa e efeito”.

Natália Ambrósio - Estudante do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto

2 comentários em Jadir Ambrósio: O maestro da massa

  1. Meu pai, José Gonçalves Trindade era casado com Maria Cândida, irmã de Helena Ambrósio (esposa de Jadir Ambrósio). Quando nasceu seu 4º fiho, a esposa pediu que ele fosse ao cartório e batizasse o filho com o nome de Vanderlei, nome de um personagem de uma radio-novela. No caminho do cartório o pai refletiu e achou melhor homenagear seu professor de cavaquinho colocando o mesmo nome ao filho, e assim fez. Na volta, perguntado pela mulher se colocara o nome de Vanderlei no filho ele revelou que o menino fora batizado como “Jadir” e ficou a espera da bronca que não veio, mas sim um elogio. E hoje me orgulho de ter o nome de um dos grandes nomes da música mineira, autor de “Buraco de Tatu” gravado por Luiz Gonzaga, vencedor de vários carnavais em Belo Horizonte, junto com Rômulo Paes e outros grandes compositores mineiros. Minha vênia ao meu “Tio Jadir”. Abraços a família “Ambrósio” (Paulo, Márcia, Roberto, CArlos e Maristela. E ainda a todos os novos primos, especialmente à jornalista, Natália Ambrósio.

    Jadir G. Trindade – Jornalista – jadirigloo56@ig.com.br

  2. Meu amigo Jadir Ambrósio, grande compositor mineiro,autor do hino do Cruzeiro Esporte Clube. Eu era menino e já ouvia sua música na voz do Gonzagão: “Não põe a mão no buraco de tatu….”
    Grande abraço Jadir e vida longa com sauúde.
    Um abraço do Juercio Magalhães Gomes.

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