MARCELO VINDICATTO – Muito além de O Palhaço: O roteirista que dá vida à ficção

Douglas Gomes e Katiusca Demetino

Marcelo Vindicatto. Foto: Divulgação Marcelo Vindicatto em uma das locações do filme O Palhaço, de Selton Mello. Foto: Divulgação

FADE IN:

EXTERIOR: PÁTIO DE ESCOLA – DIA

Estudante de jornalismo, 25 anos. Ela espera ansiosa pelo
primeiro dia de oficina da Mostra de Cinema de Tiradentes.
Fumando, no canto do pátio da escola municipal, ela observa
a movimentação de pessoas próxima à sala de aula. Seu olhar
se direciona para um homem de uns 55 anos, gordo, de barba e
cabelos grisalhos.

INTERIOR: SALA DE AULA – DIA

A estudante tenta se acomodar na sala, juntamente com várias
outras pessoas. A sala se enche até completar seus lugares. São
carteiras de escola primária, grandes e separadas das cadeiras.

MARCELO VINDICATTO
(sentando de lado numa carteira, de frente para a turma)
Boa tarde! Vamos esperar até todas as pessoas se sentarem.

A estudante olha, admirada, aquele homem de sotaque carioca.
Ela se enganou e não era o homem alto, barrigudo e grisalho.
O homem que olhava acanhado para a turma e consertava os
óculos, era um garoto com seus quarenta e poucos anos. Do
lado esquerdo um braço todo tatuado.

MARCELO VINDICATTO
(olhando de um canto para outro da sala e esfregando as mãos)
Parece que tivemos um problema e estamos sem luz. Mas enquanto
está de dia podemos continuar aqui sem problemas. Eu vou me
apresentar, depois eu gostaria de conhecer um pouco sobre vocês.

(com um breve sorriso, ele se levanta e vai até o meio da sala).
Meu nome é Marcelo Vindicatto, como vocês já sabem, sou de
Porto Alegre, mas moro há muitos anos no Rio; e eu amo o
Rio de Janeiro, cara!

Sotaque carioca, jeito de garoto surfista, porém tímido. Marcelo não tinha nenhum estereótipo de professor. Naquela tarde, ele se apresentou como um roteirista cinéfilo, apaixonado pelo que faz, pelas histórias e personagens que cria. Não precisou de slides para dar aula naquele dia, só de conversar sobre aquilo que muito amava: cinema.

Com jeito simples, ele afirma não ter grande autoestima e cativa todos aqueles presentes. Chamado por Marcelo ou Vindicatto, o contador de histórias gosta mais de ouvir do que falar: “posso enxergar em muitas pessoas um personagem especial e de grande potencial”. Para o roteirista o cinema é como um grande clichê da vida real. Seu cotidiano, formado por situações e relatos que escuta, é o responsável por seus roteiros.

Em três dias de oficina, Vindicatto tornava-se cada vez mais próximo e recíproco do carinho dos alunos. No segundo dia, sem aliança no dedo, revelou ser casado e além disso, que amava muito sua esposa Letícia e seu filho Marco Antônio de 11 anos, que foi diagnosticado com autismo. Vindicatto não sofre, muito pelo contrário. Aprendeu a respeitar e admirar o autismo como uma circunstância especial na vida da sua família. É um elo que os une ainda mais. Nesse mesmo segundo dia, deu uma volta em Tiradentes conosco, seus alunos. Rejeitou a cerveja gelada da praça, mas apreciou nossa companhia e sentou nas escadarias da igreja para conversar. Conversas soltas e despidas de vergonha.

Vindicatto se abriu, contou-nos da sua época de rock carioca, dos tempos dourados do Circo Voador, das suas loucuras da época de teatro e os seus primeiros contatos com cinema. No terceiro dia ele já explicava com graça e talento como adquiriu aquele perfeito sotaque de menino do Rio. Marcelo queria se enturmar e seu jeito de falar do sul não ajudaria em sua popularidade. Ele passou então a observar o jeito carioca, e reproduzir constantemente até aprender e nunca mais esquecer.

Cada vez mais amigos dos seus alunos, nós víamos nele um mestre, um jovem experiente. Vislumbrados ficamos, com sua disponibilidade e afeto. A oficina tinha acabado, mas os ensinamentos de um apaixonado por cinema continuavam na mesa de um bar, no restaurante, na rua e na festa. Marcelo levou um bocado dos seus alunos em seu quarto de hotel, prestando o favor de emprestar o computador para um deles. Nós vislumbrávamos aquele quarto cuidadosamente intacto. Apenas percebia-se o seu notebook numa estante lateral. Vindicatto é um grande navegador, mas confessava se sentir preso: “esse negócio de internet é do caralho, você perde horas ali e não percebe”.

Ele quer perceber o mundo do seu jeito e relatar seus enredos pitorescos e charmosos até quando não puder mais. Dessa forma, para ele, tudo na vida pode ser um roteiro. Nós aprendemos e com certeza ensinamos, pois Marcelo não tinha medo de aprender e se surpreender. Sua esposa Letícia conta que Marco Antônio o considera um super herói, mas é perceptível como ele tem o filho como seu super herói. Vindicatto expressa doçura mesmo com sua proteção de quarentão tatuado na pele e no sarcasmo. É no seu olhar, na sua ansiedade tímida, e no seu afeto gratuito que as pessoas conseguem facilmente admirá-lo. Qualquer pessoa que pergunte, dirá que Marcelo é um pai afetuoso de coração grandioso, antes de ser o roteirista do filme O Palhaço.

“Muito ansioso, quando recebe um trabalho, só pára quando termina. Só pensa naquilo, o mundo dele vira aquilo”, conta sua esposa. Esse mundo particular faz parte do seu talento como escritor. Ele leva seu trabalho pra casa, e sua esposa para o trabalho e seu trabalho para a vida. É assim que ele ganha a vida e ganha sanidade mental, como muitas vezes repetia: “o cinema me deixa tranquilo, transponho todos os meus sonhos e medos nele”. Seu próximo projeto promete, segundo ele mesmo. Uma nova parceria com Selton Mello, baseado no livro Um Pai de Cinema, de Antonio Skármeta.

Logrando ou não grandes projetos de roteiro, Marcelo Vindicatto mantém contato conosco e com outros alunos. Sempre solícito, simpático e tímido, até mesmo pela janela do bate papo no Facebook, ou nos vídeos com seu filho no Youtube. É uma timidez estranha de descrever, pois ela existe em um momento muito específico, quando seus olhos claros de garoto olham para o horizonte, justamente no momento em que abaixa a cabeça e contrai a sobrancelha. Como uma mudança de cena, ele troca de personagem, cria coragem e se entrega ao seu jeito extrovertido. “Se você gosta de escrever, é maluco. Não venha me dizer que gosta de inventar histórias e que é normal, porque eu, eu não sou!”

FADE OUT.

PS: Perfil orientado pelo professor Reges Schwaab, na disciplina Redação em Jornalismo II (2013.1)

Douglas Gomes e Katiusca Demetino

Douglas Gomes e Katiusca Demetino - São estudantes do curso de Jornalismo da UFOP. Douglas é Bolsista da Assessoria de Comunicação da mesma instituição. Já atuou em produções culturais na cidade de Ouro Preto, como Festival de Inverno e Festival Diversão, Arte e Verão e como produtor na mostra do Cine Inconfidentes da UFOP. Katiusca já participou da mostra Tiradentes de cinema como júri jovem e foi produtora na mostra do Cine Inconfidentes da UFOP.

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