Mulher de verdade, sim, senhor!

Caroline França

Lizeth Braga. Foto: Divulgação A história de vida de Lizeth Braga. Por Caroline França. Foto: DivulgaçãoAo lado da Basílica do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, está localizada a Rádio Congonhas AM 1020 – emissora criada em 1961. Aos sábados, o local normalmente agitado, está calmo, e conta apenas com a presença de duas pessoas. Na mesa de som, Luiz Fernando. No estúdio, Lizeth Braga.

Carregando uma pasta repleta de papeis, além de diversos CDs, Lizeth chega 15 minutos antes de seu programa começar. Os discos – entre eles, Zezé Di Camargo & Luciano, Roberto Carlos, Cláudia Leitte e Alexandre Pires – são entregues a Luiz Fernando, e a pasta é posta sobre a mesa, aberta na página que contém o pequeno texto de abertura. Ajeita-se na cadeira e espera o ponteiro do relógio mover-se. São 17h, e “Mulher Brasileira”, de Benito Di Paula, começa a tocar. “Esse é meu prefixo. Amo essa música! É até toque do meu celular”. Faz o Sinal da Cruz, manda sinal positivo para Luiz Fernando e começa: “Olá amigos ouvintes do Show da Vida (…)”.

O Show da Vida é um programa de entretenimento, que contém entrevistas, dicas de beleza e culinária, mensagem do dia, sorteio de brindes… “mistura tudo”, diz. O telefone não para de tocar; são os ouvintes que ligam para participar dos sorteios, tirar dúvidas, fazer perguntas, ou até mesmo dedicar canções a um ente querido. Entre uma música e outra – que, aliás, são escolhidas a dedo por ela –, Lizeth corre de um lado ao outro: atende ligações, anota recados, separa o material, espia o relógio… Em uma de suas pausas, conta que, certa vez, seu neto Filipe lhe perguntou qual era seu maior sonho. Respondeu que tinha quatro: 1) comprar uma ambulância para o asilo; 2) assistir ao show do Alexandre Pires e abraçá-lo durante a interpretação de Custe O Que Custar; 3) ir ao programa da Ana Maria Braga cozinhar uma de suas receitas e dançar Tango; 4) ir à inauguração da Praça Juscelino Kubitschek usando um vestido preto coberto por paetês (a praça já foi inaugurada, mas a vontade de ter o vestido ainda persiste). “Você não existe, vó Eth!”, foi o que o neto respondeu, rindo.

No dia 20 de março de 2012, sua trajetória como profissional do rádio completou 21 anos. Tudo começou em 1991 quando o apresentador do programa do Sindicato Metabase da Rádio Congonhas, Anivaldo Coelho, chamou Lizeth para dar uma entrevista ao vivo. Como demonstrou boa desenvoltura diante do microfone, Coelho a convidou para ser locutora. Assim que abriu uma vaga na programação da rádio, ganhou seu primeiro programa, o “Sabor de Arte”, que ficou no ar durante quatro anos. Posteriormente, apresentou, durante seis anos, o “Almanaque”. Já o “Show da Vida”, anima as tardes de sábado do público há seis anos. Um fato curioso é que, em dez anos, recebeu cerca de 4.300 cartas de ouvintes.

Lizeth encantou não só ouvintes, mas também telespectadores. Sua primeira participação na televisão foi no ano de 2002 para o programa “Terra de Minas”, produzido e exibido pela Globo Minas. Nesse ano, ocorria o VII Festival da Quitanda, e a culinarista foi convidada para cozinhar uma de suas receitas. Gravou diversas vezes para a Globo Minas – uma dessas gravações foi transmitida em rede nacional, pelo Jornal Nacional – e para a Rede Minas. No início, ficava nervosa, mas à medida que suas participações aumentaram, se acostumou.

Trabalho social

Quando o Rotary Club de Congonhas foi fundado, em 1982, seus membros eram apenas do sexo masculino – o que é apenas um detalhe, pois o clube não é restrito a esse gênero. A organização é formada por homens e mulheres de negócios e profissionais que procuram melhorar a qualidade de vida em suas comunidades através da prestação de serviços voluntários. Além disso, ajudam a estabelecer a paz e a boa vontade no mundo. Como Lizeth era amiga desses rotarianos, conhecia o trabalho social que promoviam. O fato de que nenhuma mulher havia entrado na organização despertou, ainda mais, seu interesse, e foi assim que, em 1999, tornou-se rotariana. Sua dedicação rendeu-lhe, por nove vezes, o título de 100% Atuante.

O lema oficial do Rotary Club é “dar de si antes de pensar em si”. Sem sequer conhecê-lo, Lizeth já o praticava. Três anos antes de entrar para o clube, ingressou na Casa da Amizade das Senhoras dos Rotarianos de Congonhas. A entidade é constituída não só pelas esposas e parentes de rotarianos, mas também por outras voluntárias, e desenvolve trabalhos de caráter filantrópico. Alguém que se envolve em trabalhos comunitários há 16 anos, dificilmente passa despercebido. Além do carinho e da gratidão daqueles que foram auxiliados, o reconhecimento de seu desempenho veio em forma de prêmios, títulos e homenagens. Muito vaidosa, adora receber elogios. “Eu não sou melhor que ninguém, acho que estou ali porque mereço”.

“Mulher brasileira é feita de amor”

Lizeth nasceu em uma madrugada fria do ano de 1936, mais precisamente no dia 14 de julho, na fazenda Bela Cruz (naquela época, os partos eram feitos a domicílio por uma parteira), localizada na pequena cidade de Queluzito, Minas Gerais. Sua mãe, Sebastiana de Carvalho Braga, tivera cinco filhos antes, mas estes não sobreviveram. Lizeth veio ao mundo e ficou, mas não sozinha, pois logo ganhou a companhia de mais onze irmãos. Seu pai, Antônio Fernandes da Costa, era minerador, o que proporcionava melhores condições financeiras à família, que era numerosa.

Desde pequena esteve em contato com a culinária e relembra como surgiu a receita de um bolo que se tornaria uma de suas principais especialidades. Na fazenda, o arroz era colhido e socado no pilão e, para aproveitá-lo, sua avó inventou o famoso bolo salgado, que, por incrível que pareça, não continha farinha de trigo. Lizeth, anos mais tarde, modificou a receita de família trocando o sal pelo açúcar. Em 2011, o Bolo Segredo – como foi nomeado – concorreu ao 11° Festival da Quitanda de Congonhas, representando a Casa da Amizade das Senhoras dos Rotarianos de Congonhas. A receita não saiu vencedora, o que lhe deixou um tanto quanto decepcionada.

Aos sete anos de idade, Lizeth mudou-se com a avó para Conselheiro Lafaiete para que pudesse ir à escola. A partir daí, a família se mudaria também para a cidade e, posteriormente, para Congonhas. Quando se mudou para esta última, tinha 15 anos de idade e, desde então, fincou raízes na pequena cidade que ficou conhecida pelas imagens dos doze profetas feitos por Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e que compõem o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos.

Casou-se aos 17 anos com um rapaz 19 anos mais velho – pequenos detalhes revelados de seu casamento, aparentemente, conturbado. Esta é uma parte de seu passado que permanece nas entranhas de sua memória e que não faz questão de relembrar. Após 12 anos de casados, romperam o matrimônio através da separação de corpos, já que, na época, o divórcio não era permitido e só veio a ser instituído oficialmente em 1977. O rompimento foi realizado apenas em 1990 e foi um dos primeiros da cidade. A polícia esteve presente no Fórum, assim como os curiosos. “Eu tremia da cabeça aos pés”, conta. O fato, é que a crise que se instalou em sua união matrimonial fez com que quisesse conquistar sua autonomia financeira não só para tornar-se uma mulher independente, mas também para sustentar os quatro filhos: Ângela, Willer, Elizabeth e Jaqueline. A culinária tornou-se sua primeira fonte de renda e passou a vender doces aos bares da Avenida Júlia Kubitschek, local onde residia.

Lizeth era – e ainda é – uma mulher versátil. Cheia de vontades e sonhos, sempre correu atrás daquilo que queria para si. Após vender muita cocada e muitos doces de abóbora, leite e amendoim, veio a vontade de ser cabeleireira. A oportunidade surgiu quando tomou conhecimento, através de uma revista, de uma pasta que alisava cabelos. Colocava um banquinho no terreiro de sua casa e alisava os cabelos das empregadas domésticas de sua mãe e de suas irmãs. Por não saber que era preciso usar luvas, suas mãos ficaram feridas devido à química da pasta, porém, com o tempo, adquiriu experiência e participou de cursos profissionalizantes oferecidos pelo Senac. Transformou sua sala de estar em seu primeiro salão; com o dinheiro adquirido com a venda dos sofás e da mesinha de centro, comprou um espelho e duas cadeiras, dando início a uma das muitas atividades profissionais que exercera.

Naquela época, Congonhas sediava as gravações do filme “A Madona de Cedro”, dirigido por Carlos Coimbra e lançado em 1968. Como não havia salão de cabeleireiro na cidade, era Lizeth quem arrumava o cabelo dos atores, como Leila Dinis e Sérgio Cardoso. “A Leila Diniz dormia na minha cama até esperar o cachinho secar com cerveja” “Eu passava cerveja, enrolava com o lápis, depois soltava e ficava com o cabelo anelado”, relembra. Anos mais tarde, foram realizadas as gravações do episódio “Poema Barroco”, do programa “Caso Especial”, produzido e exibido pela Rede Globo. O ator Stênio Garcia, que interpretava Aleijadinho, recebeu os cuidados da cabeleireira que, a essa altura, já era conhecida na cidade. Ela enrolava o cabelo do ator com lápis e jogava bastante spray para que ficasse com a aparência de crespo.

Foram seis salões de beleza e 22 anos de profissão. Lizeth precisava aumentar a renda para sustentar os filhos, assim, decidiu aposentar a tesoura e aventurar-se, mais uma vez, na culinária. Dessa vez, não eram doces, e sim, bolos. Vendia cerca de 20 por semana, e quando o comércio começou a crescer, chegou a vender 45. Sempre disposta a aprender e a se profissionalizar, foi para Belo Horizonte fazer cursos de confeitaria oferecidos pelo Senac. Para colocar em prática o que aprendera, começou a fazer bolos de casamento e aniversário, permanecendo nessa atividade por oito anos. Listar todas as suas experiências profissionais é uma tarefa árdua. De chef de cozinha da antiga Ferteco Mineração S.A à sacoleira no Paraguai, Lizeth se propunha a fazer não só o que lhe rendia uns bons trocados, mas, também, o que lhe dava satisfação.

Considera-se muito franca e decidida, afinal, nunca teve receio de encarar as dificuldades que lhe foram apresentadas ao longo de sua vida. Segundo ela, seu coração vem à frente de seu cérebro, o que demonstra que ela não é só uma pessoa perseverante, mas, sobretudo, sentimental.

“Tem gente que não sabe contar a própria história, porque não faz”, diz. Lizeth narra suas lembranças com paixão e entusiasmo, e tem consciência de que sua história não corresponde somente ao que se passou, mas, também, ao que ainda há de ser feito.

Caroline França

Caroline França - Estudante do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto

2 comentários em Mulher de verdade, sim, senhor!

  1. Parabens. trabalho bem elaborado, rico em detalhes e retrata a realidade.

  2. Carlos disse:

    Parabéns Caroline pelo trabalho e pela iniciativa do Curso de Jornalismo da UFOP. Parabéns à Lizeth, pelo seu trabalho e engajamento à causa social. Parabéns à Família Rotária de Congonhas/MG, que teve o privilégio de participar desta história.

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