Nunca disse mentira pra dizer a verdade

Ana Amélia de Melo Maciel

Era inverno, eu estava triste com o recente término de um romance quando vi uma bandeira gigante escrito Abou e Os caras da Terra na minha casa noturna favorita. A logomarca me chamou atenção. Era uma mandala, um rosto, ou simples galhos juntos? O que importa é que entrei. Entrei antes de começar e fui convidada a ficar. O pessoal da boate já me escalou para entregar lanches para a banda e acompanhar a passagem de som. Conheci todos e fui no carro de alguém buscar um no-break na minha casa para salvar a noite. Quando finalmente o show começou; “Tudo fez sentido/Tudo fez sentido/Tudo fez sentido/Tudo foi sentido”. Tirei fotos da banda como se fosse para alguma mídia importante, as fotos não saíram do meu orkut, facebook, computador. Catei um CD no chão, ouvi infinitas vezes nos dias, meses, anos seguintes. Voltei pra casa às seis da manhã, dormi até as dez e “lembrei que ainda existe estrela cadente”.

Logotipo da banda "Abou e os caras da Terra" Logotipo da Banda "Abou e os caras da Terra".

Esse show de Abou e Os Caras da Terra foi em 2008, ano de lançamento do CD Ondas (o que eu peguei no chão e hoje está todo arranhado) com 15 faixas autorais. Antes disso, em 2004, Michel Abou já tinha lançado um CD demo com 8 faixas, o que o projetou na cena musical mineira, principalmente belo horizontina. Mas sobre isso não entrarei em detalhes porque esta história só começa no show em Sete Lagoas, narrado acima. Depois deste dia, 19.07.08, “caminhei, caminhei” e sempre ouvia o tal CD. Quando tive acesso a uma internet um pouco mais encorpada que a discada da minha casa busquei contato para enviar as fotos. Fiquei toda feliz quando o moço da voz grave que eu tanto escutava aceitou minha solicitação de amizade no Orkut, mandei o link do álbum no bate-papo quando lembrou de mim (o coração faltou sair pela boca). O frisson passou, era só euforia de estar “próxima” de alguém que escrevia músicas que eu adorava (adoro) e me identificava; até mandei alguns textos de minha autoria, mas acho que ele nem leu.

A vida foi passando, e mantivemos o contato. Com a migração de Orkut para Facebook, lá estava Michel ABOU de novo nos “amigos”. Tentei vender o show da banda algumas vezes na época em que morei em Viçosa, não consegui. Mudei de cidade e de curso, Abou abriu um restaurante, o Gruta Metrópole em Belo Horizonte (ajudei a divulgar), e se divide entre BH e Rio de Janeiro. Eu no jornalismo, inventei de fazer uma crítica sobre a festa de lançamento do clipe Música da Vida, a conversa rendeu e “num dia feliz/nublado mas feliz” descobri que este músico já foi jornalista.

Michel Rocha Abou Abdallah, o Abou. Foto: Afirma Fotografia Perfil de Michel Rocha Abou Abdallah, o Abou, feito por Ana Amélia de Melo Maciel para o site Prosaico. Foto: Afirma FotografiaMichel Rocha Abou Abdallah aprendeu sozinho a tocar violão aos 12 anos. Na adolescência teve uma banda de rock que ganhou um festival realizado pela DM Produções e Colégio Pitágoras no ano 2000. Por acaso ou sorte começou a carreira de modelo aos 14, quando foi a uma Agência de Modelos levar umas fotos de sua mãe e foi convidado para fazer alguns trabalhos. Atuou na área até terminar o colégio, quando, depois de uma temporada de dois meses em Miami, prestou vestibular para jornalismo e passou. Ainda no início da graduação, Michel trabalhou como repórter na TV Metrópole por dois anos, fazendo coberturas de shows, esportes radicais e bandas populares do momento para programas destinadas ao público jovem. Quando a TV se direcionou para a área comercial, houve o fechamento de toda a área de entretenimento e jornalismo. Sem emprego e com o mercado jornalístico em baixa na capital mineira, pensou em ir para o Rio trabalhar com música, mas também estava sem carro pois uma semana antes havia sofrido um acidente em que perdeu o veículo. “De cabeça para baixo, o ‘seu’ caminho está”. Com o dinheiro da rescisão trabalhista e da venda da sucata do carro foi para Londres aprender inglês e tentar viver de música. “Olhando pro sol, o horizonte continua lindo”. Quando encontrou brasileiros na Cidade da Arte ficou mais fácil achar emprego. Após duas semanas “londres de casa” já tinha espaço na noite da cidade, tocava todas as segundas no Bar Madrid e duas terças por mês no Bar Salsa Club. Foi entrevistado pela jornalista Tânia Cabral para a coluna Brava Gente do jornal Brazilian News que sempre trazia a história de brasileiros que estavam tentando a vida em Londres; fruto disso começou a escrever para o Jornal durante sua estadia britânica. “A terra é ‘sua’ casa/ O sol colorido faz ‘seu’ sonho voar”. Aproveitando que estava na Europa, percorreu Espanha, Itália, França, Alemanha, Bélgica, Holanda, Áustria, Grécia, Marrocos. Voltou para o Brasil em 2004 com muitas experiências e composições que se tornaram seu CD demo de oito faixas. O nome Abou e Os Caras da Terra surgiu em 2008, a banda era composta de Abou, outros amigos músicos e um produtor.

“Com o tempo fica limpo novo, velho sujo outra vez” e para não cair na mesmice, Abou diversificou seus rendimentos em 2006 ao abrir um bar em Belo Horizonte, o Quintal Bar Cultural, no bairro Sion, nele promovia noites temáticas com djs e bandas regionais. O bar funcionou até 2011. Desde 2008 Michel administra junto com sua irmã o restaurante Gruta Metrópole (Rua da Bahia, 1052 – Centro). O espaço também recebe festas como o Forró da Gruta e o Movimento Segura a Nêga. Hoje ele se divide entre os negócios em BH e as ondas e eventos no Rio de Janeiro, está se tornando um verdadeiro “mineirocarioca”, “pegando leve pra ficar de boa”.

Eu, como fã desde o primeiro show, ajudei a divulgar todo e qualquer evento que ele promovia. Não fui em nenhum por impossibilidades financeiras e geográficas. Com esta breve vasculhada na história deste moço tenho certeza que Abou e a música nasceram para estarem juntos do mesmo modo que “Deus fez o mar e o céu da mesma cor pra se encontrarem”.

Todo o conteúdo em destaque é um trecho de alguma música do Abou. Para ouvir e baixar acesse “https://soundcloud.com/abou-3“.

Perfil orientado pelo professor Reges Schwaab, na disciplina Redação em Jornalismo II (2013.1)

Ana Amélia de Melo Maciel

Ana Amélia de Melo Maciel - é estudante de Jornalismo da UFOP. Mantém os blogs Eu lá dentro: http://euladentro.wordpress.com - Poemas, Versos e Prosa Intimista; Revista Revisto: http://revistarevisto.wordpress.com - Revista online que traz um outro olhar sobre os fatos e Revista Ninas http://revistaninas.wordpress.com - Revista online sobre o universo feminino.

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