O contador de “causos”

Allan Almeida

João Rapallo, o Pai João João Rapallo em entrevista a Allan Almeida, causos. Foto: Alunos do curso de Jornalismo da UFOP.João Rapallo, ou simplesmente “Pai João” para os íntimos, adora fazer brincadeiras e contar histórias para alegrar as pessoas a sua volta. Agora foi a vez de contar a sua própria história de vida.

Contador de casos, poeta, seresteiro, ex-prefeito de Mariana ou simplesmente “Pai João” como é conhecido na comunidade onde mora. Este é João Rapallo. Um marianense de 81 anos que vive no distrito de Passagem de Mariana desde seu nascimento, aonde construiu e mantém seus laços de amizade e família. Vindo de origem humilde, soube superar as dificuldades ao longo da vida. É difícil encontrar um ponto para começar a falar desse senhor de olhos serenos, voz rouca e mansa, cabelos grisalhos e já escassos que não se preocupa com nada, apenas com a presença das pessoas ao seu lado naquele momento. Sempre oferecendo o melhor de seu companheirismo aos que o cercam. É quase impossível sentir-se triste ao seu lado.

Que tal um pouco da sua vida de contador de “causos”, como ele mesmo diz? Em sua juventude, tinha o desejo de fazer curso superior de Comunicação Social, mas não gostava de estudar, tanto que vivia fugindo do colégio. Concluiu apenas a 3ª série, sem alcançar os estudos esperado por sua mãe. A forma encontrada para exercer a dita comunicação que tanto queria com as pessoas foi com os casos que ele começou a declamar. Casos verídicos, anedotas, ou fantasias de sua parte, todos com sua respectiva importância. Ao longo da conversa, ele mescla sua vida com casos, faz algumas graças, lança desafios, conta piadas.

Era tarde de feriado, fazia muito frio, e mesmo assim João Rapallo se dispôs a abrir as portas de sua casa para conversar. Sem qualquer formalidade, preferiu sentar-se ao sol, de frente para a rua onde mora há oito décadas, lugar no qual todos o conhecem e fazem questão de cumprimentá-lo. A cada conhecido que passa por sua porta, João faz questão de prestar merecida atenção. É o resultado de tantos anos de convivência em comunidade. “Todo mundo da comunidade de Passagem conhece o João Rapallo, e qualquer pessoa, com toda modéstia, me considera. Sempre ajudei todo mundo aqui.” Ao todo a conversa foi interrompida oito vezes, desde questões familiares a um vendedor ambulante, todos foram atenciosamente atendidos por João.

Em meio a um ou outro cumprimento, entre ainda os casos contados, João fez uma viagem ao passado. Criança pobre, começou a trabalhar cedo para ajudar no sustento de casa. “Comecei a trabalhar antes dos 10 anos. Eu comecei carregando esterco, catando lenha na serra, vendendo vidro e osso podre. Buscava leite e carne para as pessoas. Apesar de todo sofrimento, tenho saudade dessa época. A gente era feliz e não sabia.” A mãe, dona Florinda, era costureira e sustentava a família fazendo roupas para os ingleses que trabalhavam no distrito de Passagem de Mariana. Conviveu com ela até seus 96 anos, quando morreu por erro médico. Dessa convivência recordava- se de uma italiana legítima que fazia tudo para agradar ao filho, o caçula de outros três irmãos. “Para o meu aniversario ela fazia Sericaia, um doce igual pudim. Eu já era pai, avô e, para ela, continuava sendo o seu menino.” Ao contrário da mãe, a convivência com o pai, senhor Gino, foi mais curta. João tinha 12 anos quando ele faleceu. Apesar de rápida, os dois tiveram uma relação mais próxima ao contrário da que os outros irmãos tiveram.

Juventude, trabalho, família

Entrevista com João Rapallo João Rapallo, o contador de "causos" de Mariana. Foto: Alunos do curso de Jornalismo da UFOP.Boêmio não, apenas curtidor e animador da noite marianense. Reunia alguns amigos e fazia serestas nos bares da cidade. Suas apresentações atraíam a presença de pessoas que visitavam esses locais exclusivamente para prestigiá-lo. “Sempre gostei de fazer seresta. Eu tinha amigos de Belo Horizonte que diziam, ‘se o João Rapallo não cantar eu não vou’, as pessoas vinham só porque eu ia cantar, era muito bom”.

Juventude de muitos amores, paixões e mulheres marcantes em sua vida. De todas só uma se tornaria a companheira de sua vida. Marta, com quem se casou aos 24 anos. O casamento mudou o seu jeito de ser. Saiu o jovem seresteiro das noites de Mariana, entrou o esposo e pai de família. Um casamento controverso: João é descontraído e gosta de brincadeiras, Marta é séria e durona às vezes, como ele mesmo confessa. Apesar da diferença, estão juntos há 57 anos. Do relacionamento nasceram 4 filhos, 7 netos e 6 bisnetos. Um casamento duradouro tem a sua receita, que João revela por meio de seu jeito brincalhão. “Casamento hoje você precisa ser cego, surdo e mudo. Dessa forma você vai viver bem.”

João nunca teve sua carteira de trabalho assinada. Sempre trabalhou por conta própria, e dessa forma sustenta sua família até hoje. Começou com os pequenos serviços na rua. Junto ao pai fazia alças para canecas em latas de metal. Continuou no ofício após sua morte. Aos 14 anos, por curiosidade, começou a consertar bicicletas para os vizinhos. Com o dinheiro, comprava novas ferramentas para melhorar ainda mais na função. Surgiam motos e carros para que fizesse a manutenção. Quando se deu conta, inaugurava sua própria oficina mecânica, local onde trabalha há 66 anos. Caminhando pelas instalações, João mostra seu maquinário, peças criadas por ele mesmo, cada detalhe das máquinas e suas determinadas funções. Os carros que montou, os clientes que já teve, tudo contado na visita à sua oficina, erguida ao lado de sua residência.

Tudo o que foi feito nessas mais de seis décadas de funcionamento encontra-se no local. Nada é descartado, tudo tem sua determinada utilidade. Em meio a todas as coisas no interior da oficina, um carro amarelo estacionado próximo à entrada destaca-se. Trata-se do “furreca”, forma como é chamado seu Ford Bigode, um carro antigo de 1929, montado por ele mesmo. Um veículo que há oito anos não passava de um “galinheiro”, hoje é sua obra preferido, tomada como um orgulho pessoal.

João mostrava as fotos de uma carroceria velha, servindo de abrigo para as galinhas. Comprou a carroceria e a reformou sozinho, montando cada parte de um veículo que se tornaria sua paixão Cada foto indicava um detalhe da transformação de algo dado como sucata. Ninguém imaginava a transformação que aquele ferro-velho sofreria nas mãos de João Rapallo. A “furreca” tornou-se conhecida em toda a cidade e isso o tornou ainda mais conhecido. Hoje, é usado para transportar noivos em dia de casamento e é um sucesso por onde passa. Os dois já apareceram juntos em reportagens de emissoras de TV da região e de Belo Horizonte, além dos jornais locais, divulgando não só a sua imagem, mas a cidade de Mariana. Ele coleciona ainda banners, cartazes, fotos, registrando algo que tornou-se marca registrada de João Rapallo. Por onde passa ele e a “furreca” são reconhecidos pelas pessoas, devido à atribuição dada aos dois juntos.

Ele não se diz um colecionador, apenas um mecânico montador de carros antigos. Com cada “furreca” uma história diferente para contar. Uma forma de se destacar entre as pessoas. Ao contrário dos demais carros que teve e que foram vendidos, o Ford Bigode é invendável. Maior que o valor financeiro, é o valor pessoal dado por João ao veículo do qual tanto se orgulha.

Política

A passagem de João Rapallo pelo executivo de Mariana não poderia ser deixada de lado. Jamais quis ser prefeito da cidade. Aceitou, após muita insistência, ser vice na chapa de Hélio Petrus, do partido da Direita, um dos dois grupos políticos existentes na cidade na época. Por ocasião do destino, precisou assumir a prefeitura em 1971. Apesar de se dizer inexperiente na função, devido à falta de estudo principalmente, cumpriu com suas devidas obrigações em menos de um ano em que exerceu a função. “Quando eu entrei na prefeitura ela devia nove meses de salários atrasados. Para um analfabeto lhe dar ali seria muito difícil. Eu pedi ajuda a um amigo para resolver a situação. Trabalhamos muito, foi difícil, mas todo mundo que trabalhava na prefeitura foi pago em dia.”

Entre a política da época e a atual, a atenção plena às pessoas foi deixada de lado. “A gente fazia para toda pessoa com carinho e verdade. Hoje ela é atendida pela metade. Acho que se eu ganhasse hoje, talvez eu fizesse igual. A política hoje no país é complicada.” Apesar de uma olhar político fundamentado, nunca mais quis se envolver com o cenário eleitoral. Viveu uma experiência única na década de 70, seu elo político terminou ali.

Da vida sofrida da infância à realização de hoje, João não se sente arrependido de nada que fez ou deixou de fazer. Também não mudaria nada em sua vida, apenas agradece pelo o que conquistou. “Eu acredito ate que fui uma pessoa abençoada, por Deus iluminada, porque sair de um berço pobre e humilde e chegar as vezes na posição que chegar, com todas as considerações. Tive uma vida de sacrifícios e problemas. Hoje sou um homem realizado e tudo isso valeu a pena.”

Tristeza desconhecida

“É respeitando hoje que se respeita amanhã”. Respeito, confiança, amizade, amor, são as virtudes prezadas por João, um homem que teve as maiores oportunidades na vida e soube agarrá-las, as maiores dificuldades e soube vencê-las. Aos 81 anos, já não vive todo o vigor da saúde. Precisou fazer cateterismo, cirurgias na mão, na próstata e no coração. Em meio a esses problemas, surge um homem de fé, não muito fervoroso, mas que crê no poder supremo. Cada dia a mais de vida é dado como glória, mais uma oportunidade de viver as alegrias da terra, das quais não abre mão.

Quem vê a alegria no rosto de João Rapallo não imagina a pessoa triste que existe por trás de sua face. “Eu me considero a pessoa mais fingida de Mariana. Eu pareço feliz, mas eu choro por dentro. Essa tristeza eu não desejo pra ninguém”. Tristeza essa que se remete a assuntos familiares dos quais João, emocionado, preferiu não tratar. Lembranças de um passado que ele não gosta de remeter. “Os meus momentos alegres são quando eu posso fazer algumas pessoas alegres, contando piada, fazendo mágica, contando casos.” A cada assunto que toca seu lado triste, João rapidamente o abafa com outro alegre, ou mesmo uma brincadeira. Não gosta de mexer nas feridas de algo infeliz, pois fica deprimido. Sua missão é trazer a felicidade para as pessoas a sua volta, esse seu lado deprimido não pode aparecer. O objetivo é sorrir e fazer sorrir, sempre. “Continue sorrindo, porque sorrindo vocês conseguem embelezar a música da alma”. É o sorriso de João que embeleza a sua vida, e substitui todas as suas angústias. Se fosse para chorar, que fosse devido aos versos que tanto declama, de uma forma única, que somente João Rapallo consegue fazer.

Os momentos mais agradáveis de João Rapallo são fazendo graça, contando piadas, contando casos. Em meio às brincadeiras, saem versos de um poeta que quer apenas declamar. Frases belas, que tiram sorrisos, um tanto envergonhados, de quem acompanhava a conversa. Seja brincando, seja conclamando estrofes apaixonadas, o “Pai João” continua com sua receptividade de sempre, de portas abertas para quem com ele queira compartilhar dessa alegria de viver, remédio para os males da tristeza.

Allan Almeida - Estudante do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto

4 comentários em O contador de “causos”

  1. Gal Rosa disse:

    Como posso convidar o Sr João para contar suas histórias para um grupo da terceira idade?

  2. Parabéns pelo artigo. Muito bom!

  3. João Álvaro Rapallo Júnior disse:

    31.35584931

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