O inverno no ônibus do passado

Natália Goulart

Tive notícias do Brasil. Faz calor em terras “ex-joaninas”. Não tinha ideia de como era ter uma calefação em casa. Ainda é um objeto estranho e nunca entendi por onde saía o calor que esquentava as meias, toalhas e minhas mãos congeladas.

Discuti com o sol todos os dias e quando ele entrava pela fresta da janela do quarto, pensava que seus raios queimavam La Plata, na Argentina. No entanto, ele me enganava com seu sorriso majestoso. Falso. Esquecia-me de colocar a luva e o gorro. Calças atrás de calças e blusas de frio. Definiria o sol em tempos de inverno: mentiroso.

Antes de sair de casa até chegar ao ponto de ônibus, sentia medo da estação misteriosa. Havia uma melancolia no ar, na liquidez dos abraços. Nunca estive tão branca e até perguntaram em um quiosco perto de casa se eu era ucraniana. E pensava: ucraniana é demasiado oriente.

Encontrei um refúgio temporário para esconder-me do frio, o ônibus 202. Clarice Lispector, Fernando Sabino e Flaubert foram meus companheiros nessas viagens até a faculdade de Jornalismo. De cartas entre dois jovens escritores ao prazer insaciável de Madame Bovary, mas deixo a Literatura para outra ocasião. Quero contar, então, sobre a menina que sempre encontrava todas as quartas no ponto de ônibus, na diagonal 74 próximo ao cemitério de La Plata, Argentina.

O primeiro dia que a vi, pensei em um nome para ela e escolhi Anita. Anita vive perto do ponto de ônibus, pois a vejo saindo de casa com sua mãe. Atravessava a rua tranquila com a cabeça sempre baixa. Anita deve ter quatorze anos e sempre entrava no ônbius 19 Sul para ir à escola.  Usava um uniforme branco e uma mochila de flores. Não sei, ao certo, porque Anita chamou minha atenção. Há em seu rosto uma descendência italiana e uma mescla de menina e mulher. Talvez pelo cabelo grande amarrado do lado esquerdo, os brincos e também os traços da face que são, em sua essência, bem definidos. Clarice Lispector dizia em um de seus livros que chegamos a uma fase da vida em que somos responsáveis pela cara que temos. Assim miro Anita, totalmente imersa em sí. Depois de um tempo, Anita sumiu. Talvez esteja em sua casa aquecendo suas meias na calefação.

Enquanto esperava o ônibus sem ela, escutava músicas de viagem (aquelas que nos lembram as árvores na estrada em consonância com ar que bate na cara), e sempre digo que as viagens nos modificam, nos fazem encontrar a cara que queremos.

A viagem no ônibus 202 era literalmente um desafio lingüístico. Saía de casa ensaiando os números em castelhano – uno noventa, por favor! – e repetia umas dez vezes, porque o motorista nunca entendia, além do que, tinha olhos impacientes. Porém, inventei que as exclamações devem unir-se as palavras, assim entendiam minha língua. Com um livro embaixo do braço, o MP3 nem tão moderno e – uno noventa, por favor! conseguia chegar à faculdade.

Num ímpeto, escolhia um lugar perto do motorista para não me perder nas várias diagonais não muito distintas. Escolhia um banco para mim. Olhava as pessoas subindo no ônibus e elas pareciam fugir dos bancos de dois lugares. Na época não era só uma impressão. Achava que os argentinos nasciam no frio e eram frios. Em bom português, eles não queriam papo. Com o tempo, porém, os argentinos me mostraram outras estações.

O ônibus 202 tinha ares de passado. O cheiro de mofo das roupas escuras dos passageiros lembravam as feiras americanas. Os casacos de estilo napoleônico com botões dourados, os antiquários de móveis antigos de sótãos esquecidos.

Observava os olhos melancólicos e silenciosos daquela gente que nunca estava ali dentro. Voltavam há anos quando da chegada dos imigrantes italianos ou semanas passadas em alguma festa familiar onde os velhos falavam de Dardo Rocha e o progresso.

Cada pessoa que subia, parecia andar com a história argentina nas costas. Assim, tentava recordar de alguma época desse país. Das guerras, da ditadura militar, dos homens e mulheres que fizeram história. No entanto, não sabia quase nada.

Quando era pequena, os adultos diziam que as bicicletas vermelhas andavam mais rápidas que as outras. O ônibus do passado não é de todo vermelho, porém, é feito de urgência e ansiedade. Era só pisar com a ponta do sapato na escada que os motoristas aceleravam. Às vezes tinha a impressão de que não conseguiríamos fazer as curvas do parque Savedraa. Fechava o olho com medo do ônibus atravessar em cheio o passeio. Enquanto o motorista fazia força para girar o volante, as moedas saltavam dos bolsos e caiam no chão. Os passageiros encolhidos de frio, balançavam de um lado para o outro até encontrar um lugar. E quando sentavam em meio a toneladas de roupas, a respiração e a disposição dos corpos lembrava a palavra alívio.

Antes do inverno, as janelas do ônibus 202 ficavam abertas. Seria um crime se alguém se atrevesse a abri-las. Fiz drama no inverno, é que meu corpo doía ao ponto de gritar por dentro quando chegava à Plaza Rocha, o ponto final. O ônibus do passado despedia-se. As folhas delineando o caminho e a ruas mudando de cor. O marrom misturado ao amarelo caindo para o vermelho. Os platenses pela manhã varriam as veredas e as cores sumiam. No outro dia, lá estavam novamente. Pensava: que incômodo é esse com as pobres folhas do mês de julho? Secas.

Natália Goulart - Estudante do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto

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