O senhor dos doces e das cores

Cristiano Gomes

Entrevista com Seu Tião. Foto: Cristiano Gomes Entrevista com Seu Tião, vendedor de doces em Ouro Preto/MG. Foto: Cristiano GomesCalça jeans escura, camisa social abotoada quase até o pescoço e, para completar, um avental branco. Na cabeça, um boné, que, sem marca alguma, o protege do sol. Nas mãos – às vezes nos ombros – uma bandeja colorida, cheia de doces e histórias. É assim, chamando a atenção, que Sebastião da Circuncisão da Silva, mais conhecido como Seu Tião dos doces, sobe e desce as ladeiras da histórica Ouro Preto, vendendo as conhecidas e tão faladas cocadas e os cajuzões e brigadeirões.

Ao aparecer pelas ruas, Tião costuma ser facilmente reconhecido, e logo não perde a oportunidade de cantar, um gosto e uma estratégia para começar a vender os seus doces. ”La ai, lá ai, lá ai. Mamãe deixou, deixou, eu brincar no carnaval em Ouro Preto, monumento mundial…”. Sempre animado, com ou sem o ritmo da folia, o doceiro solta a voz cantando as suas próprias canções, principalmente quando encontra alguma criança e nos intervalos de uma venda e outra.

Nas pedras acinzentadas das ruas e as coloridas que formam os passeios, Tião anda com passos bem curtos, cumprimentando os amigos já conhecidos e encontrando novos que, mesmo não sabendo os nomes, faz questão de desejar um “bom dia”. Quando está perto de algum monumento histórico, a parada é quase que instantânea. A partir do papel, o saquinho marrom que utiliza para guardar os doces e uma caneta, que fica atrás da orelha, uma nova música começa a ser produzida. O resultado de sua inspiração só é possível saber quando chega em casa, que é quando consegue unir os versos e preparar uma melodia.

Com 82 anos de vida, o corpo querendo ou não já pede um pouco de descanso. Subir e descer as ruas centenárias costuma cansar um pouco.  O ponto onde sempre marca presença, para pegar um fôlego, fica em frente ao prédio histórico da Casa dos Contos. De lá não deixa de chamar a atenção. Às vezes, o silêncio em alguns instantes surge, porém, logo os olhos antes concentrados nas ladeiras se voltam para mais uma venda.

O outro ponto de descanso e de lembranças fica em sua casa, localizada em um bairro perto do centro da cidade. Quem sempre fica o esperando é Dona Maria, sua esposa, que há 57 anos mantém uma união que “não tem segredo”. Os frutos de um casamento de tantos anos construiu também uma grande família: 13 filhos, 21 netos e 5 bisnetos.  E Tião garante, sabe o nome de todos.

Mesmo sempre trabalhando, o doceiro mantém uma forte relação com a sua família. Alguns filhos moram no exterior, mas a distância só faz aumentar ainda mais a saudade. Tentando conciliar vários papéis, de pai e trabalhador, que Tião vai vivendo com o sorriso largo estampado no rosto.  Mas as preocupações também fazem parte da vida, a principal é com a reforma de sua casa.

Os móveis novos, pouco a pouco vão sendo comprados e compondo o ambiente, assim que o dinheiro vai chegando. Na sala, além do baú, o computador completa o espaço, pois mesmo sem saber usá-lo, Tião quer apreender, e em breve estará navegando pela web com a ajuda de um de seus netos. A cozinha, onde produz os doces, é o lugar mais especial da casa, por lá os ingredientes ficam todos certinhos, guardados em uma estante. O maquinário antigo, como o torrador de amendoim e o fogão vermelho, também completam o cenário de aromas, uma mistura de chocolate e coco permanecem no ar.

Entrevista com Seu Tião. Foto: Cristiano Gomes Entrevista com Seu Tião, vendedor de doces em Ouro Preto/MG. Foto: Cristiano GomesAs cores sempre vivas fazem Tião acordar cedo para começar o preparo dos doces, e sendo o próprio chefe, ele já tem esquematizado a sua rotina que de terça a sábado começa a partir das seis da manhã. Domingo e segunda é dia de folga, “meio fajuta”, como gosta de dizer. A volta para a casa, acontece somente quando consegue vender todos os doces da bandeja colorida.  E com ele sempre está presente o fiel escudeiro, o uniforme, sua marca registrada que confirma que a estratégia “chama a atenção”, tendo como intuito atrair o olhar dos clientes por meio das cores, que não podem faltar em sua vida. Para Dona Maria, que costuma chamar o marido de Tatão, apelido íntimo, existe um porém: “Estou brigando com ele, quando terminar isso aqui (obra dentro da casa), quero que ele pare um pouco de vender doce, está trabalhando demais”.

Andando e cantando pelas ruas, Tião se torna o responsável pelo sustento de sua família, com o dinheiro que consegue ganhar do lucro da venda dos doces junto com  o da  aposentadoria. As moedas e notas do “antigo bico” tornam-se, hoje, elementos principais no bolso do Tião. “Quando eu aposentei, eu falava assim: Isso aqui é um bico que ajuda na aposentadoria. Agora inverteu, a aposentadoria é um bico e o trabalho é o grosso, como se fala, né?”.

Da roça a cidade que escolheu para viver

Ao se lembrar da infância vivida em Brás Pires, MG, Tião conta que a cidade “era uma roça”.  A convivência com os seus irmãos sempre foi muito intensa, mas a diversão e as brincadeiras eram deixadas um pouco de lado, pois juntos ajudavam o pai nos trabalhos que envolviam a plantação e no manuseio da engenhoca, um moedor de cana.

Mesmo estando no campo, à escola nunca foi deixada de lado. Apesar das dificuldades, Tião conseguiu completar até a sexta série do ensino fundamental.  Quando chegou em Ouro Preto em 1950, serviu ao Exército Brasileiro. Por ser músico foi julgado como incapaz pelos comandantes, que naquela época não aceitavam jovens que exerciam essa atividade. Tião sempre gostou de se aventurar pelas notas musicais, e a influência veio do pai, um apaixonado por música.  Na cidade natal, apreendeu a tocar trombone com o mestre Joaquim Cardoso Dias, nome que não consegue se esquecer. Inspirando no professor, ele continuou a tocar na antiga Vila Rica em bandas tradicionais da cidade.

E como viver só de música não dava, Tião se aprimorou no SENAI, fazendo um curso profissionalizante e logo em seguida foi contratado para trabalhar na fábrica Alcan Alumínio Brasil como operador de ponto rolante, ficando durante 28 anos exercendo a atividade.  Nas horas vagas, ele tinha mais um emprego, que prefere chamar de “pessoal”, o de doceiro.   De lá pra cá, já são 41 anos dedicados a essa profissão, que aprendeu com os pais.  Ao sair da Alcan, montou a lanchonete O Rei das Vitaminas, mas a experiência não deu certo: “Não gostei muito não, gosto de andar, movimentar, conversar com o povo”.

Entrevista com Seu Tião. Foto: Cristiano Gomes Entrevista com Seu Tião, vendedor de doces em Ouro Preto/MG. Foto: Cristiano GomesE entre uma conversa e outra, Tião foi se apaixonando pelas letras, e ao longo dos anos virou escritor e compositor.  Durante a adolescência, quando mostrava os seus poemas para os pais, que eram analfabetos, eles costumavam dizer que o “pequeno” iria ficar doido.   “Eles falavam que eu ia ficar doido, aí eu pegava, rasgava e jogava fora. Ficava com medo”.

Mas, o medo passou. Canções e poesias foram surgindo e continuam a surgir nos intervalos de suas vendas, principalmente quando está perto dos monumentos históricos.  O resultado desses intervalos, resultou na conquista de um concurso em Juiz de Fora,  onde teve a oportunidade de reunir parte do material que produziu e publicá-los em seu primeiro livro Histórias de Ouro Preto em Poemas, exemplar que foi o responsável por colocá-lo na galeria de pequenos escritores da cidade. Na música, a canção Linda Flor, de sua autoria, foi gravada no CD que faz parte de uma coletânea do Concurso Banco Real Talentos da Maturidade, que gosta de mostrar com orgulho.

Com muitos caminhos ainda a seguir, um de seus projetos é o de escrever o segundo livro de poesias; o título já está pensado e as primeiras poesias guardadas e registradas no cartório como precaução. Mesmo sendo popular, Tião diz que nunca se candidataria ao cargo de vereador, apesar de já ter recebido vários convites. Ao se definir como um homem “inteligente, que tem muita esperança da vida e no futuro”, o doceiro não perde a esperança na vida e continuando a trilhar os seus sonhos e objetivos, que muitos ainda terão o prazer de conhecer. Basta dar uma volta por Ouro Preto, afinal esta histórica cidade abriga pessoas e monumentos que precisam e devem ser conhecidos por todos.

Cristiano Gomes - Estudante do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto

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