O Torvo?

Edmar Borges

Edgar Allan Poe. Imagem: Divulgação Edgar Allan Poe. Imagem: DivulgaçãoEm setembro de 1849, Edgar Allan Poe, que aos quarenta anos havia vivenciado de perto as satisfações e desgraças da sobrevivência à custa da escrita, contou à tia – no que seria a última carta que escreveria em sua vida: “Os jornais têm me elogiado; em todas as partes me recebem com entusiasmo”. Três semanas mais tarde, foi encontrado nas ruas de Baltimore, nos Estados Unidos, cambaleante e sob o efeito de terríveis delírios. Sofrendo de febre alta e dores constantes, o inventor da ficção policial já não estava mais tão otimista a respeito de seu futuro, o qual não existiu – morreu alguns dias depois, sem ter tido, em nenhum momento, capacidade de explicar o que lhe acontecera. “Senhor, por favor, ajude minha pobre alma” – foi seu último murmúrio, segundo John Joseph Moran, o médico que tratou dele no hospital. Poe se recuperava da morte da esposa e apresentara-se melancólico e desatinado durante os meses que antecederam sua morte, tendo inclusive tentando suicídio poucos anos antes. No último mês, porém, noivara-se outra vez e parecia finalmente apto para retomar sua consciência, o que veio a se mostrar apenas uma impressão.

Edgar Allan Poe, conhecido mundialmente por seu estilo exotérico, foi um dos primeiros contistas dos Estados Unidos. Seu trabalho, um marco na literatura norte-americana, serviu de inspiração também para a música, o cinema e a televisão. Autor do insucesso de sua época e um dos maiores clássicos da atualidade, “The Raven” (“O Corvo”, em português), Poe criou personagens únicos, frequentemente oscilando entre a fantasia e a realidade em suas histórias, jogando com o grotesco e o medonho, o exato e o misterioso, além de ter sido pioneiro na exploração do terror psicológico entre os escritores do gênero horror.

“Profeta”, disse eu, “profeta” – demônio ou ave preta!
Pelo Deus ante quem ambos somos fracos e mortais,
Diz a esta alma entristecida se no Éden de outra vida
Verá essa noite perdida entre hostes celestiais,
Esse cujo nome sabem as hostes celestiais!”
Disse o corvo: “Nunca mais”.

O Corvo
(tradução de Fernando Pessoa)

A história de vida de Edgar é tão imprecisa e eventualmente indecifrável quanto sua própria natureza, mas também gentilmente pincelada por encantadores pormenores. Nascido em Boston, Massachusetts, sob o nome de Edgar Poe, no dia 19 de janeiro de 1809, ele foi o segundo filho de Elizabeth Arnold Hopkins Poe, uma atriz americana famosa por sua beleza, e David Poe Jr, que, por influência da esposa, também viera a se tornar artista. Dois anos após o nascimento de Edgar, no entanto, David deixou a família e nunca mais se soube de seu paradeiro. Elizabeth, que estava grávida quando o fatídico abandono os acometeu, acabou por morrer pouco depois do nascimento da irmã mais nova de Edgar, em Richmond, de forma que as três crianças se viram entregues ao cuidado de amigos da família. Para a sorte de Edgar, contudo, Frances Kelling Allan e o esposo, John Allan, um rico mercador de tabaco da região, tiveram compaixão de sua infelicidade e o acolheram. Embora nunca tenha sido totalmente adotado, foi em 1812 que um dos maiores escritores românticos da literatura ocidental passou a atender pelo nome de Edgar Allan Poe.

Por volta de 1815 os Allan se mudaram temporariamente para a Europa e, durante os anos que se seguiram, investiram muito na educação de Edgar, que frequentou duas das escolas mais tradicionais da Inglaterra: Misses Douborg, em Londres, e Manor School, em Stoke Newington. De volta a Richmond, em 1820, Poe foi matriculado em duas academias da cidade, onde revelou surpreendente talento para o aprendizado de línguas e, especialmente, para a traquinagem. É dessa época que procedem registros de suas primeiras composições literárias. Mas, com a exceção de “O, Tempora! O, Mores!” (“Que Tempos! Que Costumes!”) a maioria delas se perdeu.

Da alma de Poe

Edgar, como veio a ser descoberto mais tarde, possuía, em adolescência,
uma alma boêmia e ligeiramente incompreendida.
À sombra de sua aristocracia escondia-se um insurgente, um filho
do disparate mais moço, aventureiro de berço que precocemente
envolveu-se com apostas, mulheres e bebidas, revelando desde a
juventude uma tendência poética à rotina romântica que acabou por
ser expressa em sua literatura, quando figurou-se, mais tarde, como
o maior nome do romantismo americano.

Insurreição, West Point e os primeiros versos

O jovem Poe tornou-se conhecido pela dificuldade que tinha em acatar ordens ou manter-se sóbrio, tal qual pelo seu enorme e evidente talento para a escrita, fama na qual os anos que se passaram entre 1826 e 1831 têm, sem dúvida, derradeira parcela de culpa.

Ao ingressar na Universidade de Virginia, em Charlottesville, ele perdeu dois mil dólares no jogo, dívida que seu padrasto se negou a pagar, retirando-o imediatamente da instituição (segundo alguns relatos, ainda, Edgar teria sido expulso, graças a um estilo de vida aventureiro e desajustado, embora o jovem apostador tenha se destacado com notabilidade invejável em Línguas Românicas durante o único semestre em que esteve matriculado). Logo depois, em 1827, sob o pseudônimo de Edgar A. Perry, Poe resolveu se engajar no exército dos Estados Unidos e, até o ano seguinte, serviu em Boston, no Fort Independence, tempo durante o qual escreveu Tamerlane and Other Poems, uma pequena coletânea de poemas que veio a ser seu primeiro livro publicado.

Então, no início de 1829, a senhora Allan, de quem Edgar gostava muito, morreu de repente. O jovem escritor deu baixa no exército em seguida e, em Baltimore, onde viveu algum tempo com parentes, encontrou um editor para uma versão aprimorada de seus poemas, a ser lançada em dezembro do mesmo ano sob o nome de Al Aaraaf, Tamerlane and Minor Poems.

Em pouco tempo, o senhor Allan acabou por casar-se novamente com uma jovem mulher, união da qual nasceriam dois filhos. Dessa forma, as chances de Edgar receber alguma parte da herança do pai adotivo, que em várias ocasiões anteriores recriminara o seu desejo de se tornar escritor, seriam praticamente nulas.

Foi em 1830, aos 21 anos, que ele ingressou na Academia Militar de West Point, em Nova York, talvez intentando simplesmente fugir de Richmond ou, dentre várias outras razões possíveis, porque tenha percebido que não conseguiria sobreviver apenas da escrita por muito tempo. De qualquer forma, dá-se início a um longo período de entusiasmo criativo na vida de Poe, que alcançou, inclusive, certa popularidade entre os cadetes com seus versos cômicos, nos quais zombava deliberadamente dos oficiais. Ainda nessa época, o senhor Allan descobriu uma carta recente em que Poe comentava: “O Sr. A. não se encontra muito frequentemente sóbrio”. Isso fez com que eles discutissem e se afastassem permanentemente.

Durante o ano seguinte, então, Poe passou a contrariar o sistema militar com frequência, faltando às aulas e descumprindo as obrigações religiosas, de forma que foi dispensado sem demora. Na primavera do mesmo ano, em Nova York, antes de se mudar para a casa da tia em Baltimore, publicou Second Edition, agora sob o nome de Edgar A. Poe, com revisões de seus primeiros poemas e novas composições, dentre elas “To Helen” (“Para Helena”, em português), pela qual muitos o conhecem nos dias de hoje. Também nessa publicação, na prosa “Letter to Mr. _”, Poe expõe sua visão da arte, como também faria pouco antes de sua morte, em conferências literárias e no seu texto “The Poetic Principle”.

Do valor da escrita

Edgar acreditava que trabalhos com significados óbvios não eram
arte; para o escritor, um trabalho realmente bom tinha que ser
breve e concentrar-se em um efeito único e específico, e onde
todos os sentimentos e idéias fossem cuidadosamente calculados com
antecedência (método que pode claramente ser encontrado
em seus contos, especialmente os investigativos, que serviram de
inspiração para autores como Conan Doyle e Agatha Christie).
Ele disse certa vez que define “a poesia das palavras como criação
rítmica da Beleza” e que “seu único juiz é o Gosto”.

As primeiras publicações

No final de 1831, Poe mudou-se para a casa da tia, Maria Poe Clemm, e da prima, Virginia Eliza (então uma criança). Vivendo em Baltimore, inscreveu vários de seus contos em concursos de dois jornais, um do Philadelphia Saturday Courier  (dos quais são publicados, no decorrer de todo o ano de 1832, cinco composições) e outro do Baltimore Saturday Visiter (ocupando os dois primeiros lugares e ganhando prêmios em dinheiro). Em 1834, teve seu primeiro poema publicado em uma revista de grande circulação, a Godey´s Lady´s Book.

Nesse mesmo ano, John Allan morreu. Como Poe já supunha, o comerciante não citou seu nome em nenhuma parte do testamento (e não há qualquer declaração de Poe onde ele tenha dito que esperava pelo contrário). Seu interesse em alguma porção da herança, se de fato existiu, era o de se sustentar até que suas publicações pudessem torná-lo financeiramente independente.

Do talento inato

Edgar não era munido de ganância e tudo quanto conquistava,
embora não o surpreendesse, vinha de súbito.

Como o que aconteceu a seguir.

Com sua prosperidade nos concursos e suas elogiadas publicações, ele chamou a atenção de Thomas White, fundador da Southern Literary Messenger, importante revista de Richmond, cidade para a qual retornou, em 1835, quando aceitou o convite do Sr. White para dirigir seu periódico. Segundo boatos da época, apesar de ser um homem muito inteligente, o Sr. White não possuía absolutamente nenhum talento literário, de forma que Poe, possuindo-o em demasia, veio a calhar muito bem, ainda que jovem, e acabou por tomar a frente da editoria em pouco tempo. Assinou uma coluna sobre eventos literários, publicou diversos poemas (destacando sua pluralidade de estilo, desde o gótico até o satírico e o burlesco) e escreveu mais de oitenta revisões de livros. Essas últimas o tornaram conhecido pelo nome de “Tomahawk Man”, “homem da machadinha”, apelido que ganhou dos leitores em decorrência do grande número de obras que demolia. Embora o público considerasse Poe um homem esquisito, excêntrico e frequentemente bêbado, também agradava muito do seu estilo crítico, sua austeridade de visão estética e suas composições inovadoras, de forma que a circulação da Messenger aumentou drasticamente em menos de dois anos.

Apesar de não ser um homem cobiçoso, Edgar tinha ambição e projetos. Foi o primeiro escritor de que se tem conhecimento a viver exclusivamente de seus trabalhos escritos, e não apenas de funções de editor como também de colaborações independentes a vários periódicos da época. Em 1837, após se demitir do Messenger, Poe se torna o que pode ser considerado o primeiro “free-lancer” da América, e, ao mudar-se com sua família para Nova York, passa a contribuir com jornais e revistas até encontrar outro cargo de editor.

A saída do Messenger e um esclarecimento

De acordo com relatos, Edgar e Thomas White teriam brigado,
e, ao invés de ter pedido demissão, o escritor teria sido demitido
(em decorrência, parece, de um acesso de hipocondria e das
habituais crises alcoólicas de Poe). No entanto, assim como
em muitos outros episódios da vida do autor de “Berenice”, a
verdade acabou por ser transformada pelo tempo e por uma curiosa
necessidade de fantasia que acometeu muitos dos biógrafos de
Edgar, especialmente os que surgiram pouco depois de sua morte.
Para dar a seus textos tons de dramatização, muitos deles culpavam
sua dependência alcoólica por tudo o que lhe acontecia.
Fontes críveis e pesquisas recentes mostraram, porém, que Edgar
se demitiu do Messenger porque não considerava justo o salário
com que o sr. White lhe mantinha, estando ele ocupando com tanta
dedicação o cargo mais importante na revista.

Edgar escreveu apenas uma novela, “O relato de Arthur Gordom Pym”, que havia sido publicada em forma de seriado no Messenger e que então, em 1838, foi lançada sob o formato de livro, em Nova York. Na Filadélfia, para onde acabou por se mudar, ele contribuiu para alguns periódicos, o que acarretou na sua amizade com William Burton e, posteriormente, no seu cargo de editor associado na revista do amigo, a Burton´s Gentleman´s Magazine, onde ele revisava livros e tinha uma coluna assinada por mês. Em 1840, publicou uma reimpressão de 24 de seus contos, o atualmente famoso Tales of The Grotesque and Arabesque, e acabou por se desentender com Burton, iniciando um projeto de lançamento de sua própria revista literária. Por falta de apoio financeiro, não obteve sucesso, mas foi indicado por Burton, apesar de terem brigado, a George Graham, que acabara de comprar a Burton´s Gentleman´s Magazine, fundi-la com a sua própria revista e formar a Graham´s Magazine, na qual Edgar também passa a trabalhar como um dos editores. Lá, ele investe na publicação de contos detetivescos, dentre eles o fascinante “The Murders in The Rue Morgue” (“Os crimes da Rua Morgue”), onde desenrola com inteligência a solução de um caso de assassinato em uma famosa rua de Paris.

O assassínio do comum

Edgar adorava elaborar crimes. Ele os compunha em vários de
seu contos, sempre apresentando para eles um enredo misterioso
e uma solução lógica mas eventualmente impensável. O leitor é
conduzido tal qual sob o efeito de hipnose ao desfecho de suas
histórias de investigação, o que indica o dualismo de sua arte (e
de sua própria personalidade): artesão de tristeza e de horror, e ao
mesmo tempo de um raciocínio primoroso, do qual se orgulhava
sem modéstia.
Com sua tendência pelo macabro e inegável inteligência,
Poe elevou ao paraíso literário o gênero investigativo.

No meio tempo em que trabalhou como editor em Richmond e Nova York, ele veio a ser acometido, aos 26 anos, por um evento digno de seus poemas de amor – e, mais tarde, digno com ainda mais certeza dos de tristeza mais larga.

Virginia

A prima de Edgar, Virginia, tinha apenas treze anos quando sua mãe autorizou, em 1835, que ela passasse a morar com algum de seus primos, provavelmente já intencionando que a filha se entendesse com um deles e se casasse. Tão logo o soube, Edgar escreveu à tia pedindo a mão da moça, que lhe foi concebida. Retornou a Baltimore por algumas semanas, onde ele e sua prima se casaram em segredo. Em maio de 1836, quando anunciaram publicamente a união, Maria Clemm e a filha se mudaram para Richmond com ele.

Não se sabe se o então bem sucedido editor do Messenger estava realmente apaixonado por Virginia quando a pediu em casamento ou se, como já foi cogitado, ele pretendia apenas dar um novo rumo à sua vida, vindo a amá-la posteriormente. Sabe-se que ela o incentivou a deixar seu vício da bebida e a aumentar sua produção literária. De acordo com registros da época, eles eram um casal comum, discreto e aparentemente feliz. Além disso, a julgar pela depressão e as prolongadas crises de alcoolismo que acometeram o escritor quando viuvou-se, uma década mais tarde, ele provavelmente tivera por Virginia imenso apego. Dedicou, após a morte da esposa, um poema a Marie Louise Shew, mulher que cuidou dela nos seus últimos momentos de vida.

Foi em 1842, quando ela e Poe completavam sete anos de casamento, que Virginia deu o primeiro indício de que estava com tuberculose. Sofreu de uma grave hemorragia em janeiro e, a partir de então, debilitou-se e foi morrendo aos poucos.

Prosa da dor (escrita por Poe a um fã em 1847)

“Seis anos atrás, minha esposa, que eu amei como nenhum homem
jamais amou antes, viu seu sangue lhe sair enquanto cantava. Sua
vida se tornou um desespero. Despedi-me dela e me submeti a
todas as agonias de sua morte. Ela se recuperou parcialmente e
eu voltei a alimentar esperanças. Ao final de um ano, aconteceu
novamente – foi quase a mesma cena. Novamente, repetiu-se
tudo depois de um ano. E de novo – de novo – e de novo e mais
uma vez, a intervalos irregulares. A cada vez, eu sentia todas as
suas agonias – e a cada ascensão de sua condição, eu a amava com
mais devoção e me agarrava à sua vida com uma obstinação desesperada.”

Poetas e Poesia na América

Em 1843, Poe tentou mais uma vez criar sua revista independente, mas não conseguiu. No início desse mesmo ano, Graham começou a lançar partes do que viria a ser The Prose Romances of Edgar A. Poe, e, no outono, Edgar publicou o conto gótico “The Black Cat” (“O gato preto”), marcando para a eternidade sua competência em desenvolver histórias onde o terror e o amor são elementos de um único ambiente.

Trecho de “O Gato Preto”

“O vivo e insondável desejo da alma de atormentar-se a si mesma,
de violentar sua própria natureza, de fazer o mal pelo próprio mal,
foi o que me levou a continuar e, afinal, a levar a cabo o suplício
que infligira ao inofensivo animal [o gato preto]. Uma manhã,
a sangue frio, meti-lhe um nó corredio em torno do pescoço e
enforquei-o no galho de uma árvore. Fi-lo com os olhos cheios de
lágrimas, com o coração transbordante do mais amargo remorso.
Enforquei-o porque sabia que ele me amara, e porque reconhecia
que não me dera motivo algum para que me voltasse contra ele.”

Edgar realizou em algumas cidades e eventos dos Estados Unidos um circuito de conferências com o tema “Poets and Poetry in America”, onde palestrava sobre poesia americana e discorria acerca de suas opiniões literárias. Enquanto fazia isso, voltou para Nova York com sua família, tendo trabalhado até 1845 no New York Evening Mirros, onde, em 29 e janeiro, publicou “The Raven”, poema que foi traduzido para o francês por Charles Baudelaire (que se referia a Edgar como um homem cujo “céu espiritual” vivia repleto de sombras) e para o português por Fernando Pessoa e Machado de Assis. No poema, o personagem sofre a perda da mulher amada, tema recorrente nos textos de Poe, enquanto descreve a visão de um corvo, que seria a representação da morte e sua imutabilidade.

Na época, apesar da métrica exata, dos jogos fonéticos e da atraente atmosfera sobrenatural, “The Raven” não fez sucesso algum. Com o passar das décadas, porém, e a consagração do estilo de Edgar, se tornou uma das maiores referências literárias do ocidente no que diz respeito ao romantismo (e, ainda, ao ultrarromantismo).

Após a apática publicação desse último poema, então, Poe continuou suas conferências e leituras ao público, tendo, inclusive, em outubro de 1845, lido Al Aaraaf no Liceu de Boston (fingindo, por brincadeira, que a peça era de outro autor). No mesmo período, contribuiu com a Broadway Journal, onde reimprimiu vários de seus poemas e contos e compôs mais de sessenta revisões e ensaios literários. Quando os editores da Broadway Journal se desentenderam e o periódico ruiu, há registros de que Poe tenha pedido emprestado uma grande soma de dinheiro a seus amigos e finalmente se tornado proprietário de sua própria revista; por outro lado, não são encontradas explicações para o fim de seu periódico, pouco tempo depois, nem evidências materiais de que ele tenha realmente existido.

Tendo se afastado do Broadway Journal, Poe se refugiou com sua esposa e com sua tia e sogra em um chalé, no Bronx, onde passou um tempo dedicado à família. Então, em 30 janeiro de 1847, cinco anos depois de apresentar os primeiros sintomas de sua doença, Virginia Poe Clemm morreu.

E, com ela, Edgar também foi se despedindo dessa vida, até não sobrar nada dele senão um suspiro de clamor final.

Esperança contra toda esperança

Edgar se afundou em depressão, melancolia e embriaguez após a morte de Virginia. Neste episódio, de fato, existem declarações e registros concretos de que ele se acabou no vício e na profunda tristeza do luto. Seu ritmo de produção caiu por mais da metade e ele escreveu apenas dois poemas em todo o ano de 1847. Aos poucos, foi se prestando a um extenso e mascarado suicídio, como relatam todas as fontes, tendo, de acordo com registros médicos, quase o conseguido, em 1848, quando esteve em Richmond e ingeriu enorme quantidade de láudano. Apesar de dar continuidade a suas conferências, elas agora estavam tomadas pela sua dor – realizou um ensaio intitulado “The Universe”, onde falava sobre o princípio da morte e a aniquilação como desígnio inevitável do Universo (e que veio a se tornar, mais tarde, o livro Eureka). Leu também, em Providence, “The Poetic Principle”, onde discorreu sobre sua teoria literária com impecável propriedade.

Por outro lado, na tentativa de superar sua instabilidade e a ausência de Virginia, Edgar passou a se envolver com outras mulheres. Cortejou a poetisa Sarah Helen Whitman, com quem noivou-se (sob a condição de que ele se afastasse de todo tipo de estimulante); mas, pouco tempo depois, por suspeitar que Edgar mantinha contato amoroso em segredo com Annie Richmond, outra mulher por quem ele também já teria sido apaixonado, Helen rompeu com ele.

Esse foi o momento, no último ano de sua vida, em que o escritor voltou a Richmond e reencontrou Sarah Elmira Royster, um amor de infância, então viúva, e a quem propôs casamento imediatamente. Sarah aceitou e a cerimônia foi marcada para outubro de 1849, mesmo mês em que, ainda antes do ato oficial, Poe foi encontrado delirando nas ruas de Baltimore e levado ao Washington College Hospital, onde morreu depois de quatro dias.

Edgar jamais foi capaz de explicar o que se passara com ele. Tudo o que se sabe sobre as semanas que antecederam sua morte é que ele havia viajado a Baltimore e, ao que parece, se entregado a uma bebedeira contínua. Apareceu em estado praticamente terminal em frente a uma taverna, onde foi acudido por um impressor de nome Joseph W. Walker. Já internado, ficou sob os cuidados do Dr. Joseph E. Sondgrass, que descreveu seu estado como “repulsivo” e os seus olhos como “vazios e sem brilho”. Posteriormente, o Dr. Sondgrass o levou ao hospital da Universidade, onde outro médico, o Dr. Jonh Joseph Moran, o tratou.

Moran detalha a decadência das roupas de Edgar, que costumava vestir-se muito bem no dia-a-dia, dizendo que ele trajava “uma velha e manchada jaqueta, calças em um estado similar, um par de sapatos gastos com as solas gastas e um velho chapéu de palha”.

Do fim da esperança

Poe foi alojado pelo Dr. Moran em uma casa próxima a dele, sob
os cuidados contínuos da própria esposa do médico, Mary. Pouco
antes de morrer, Poe perguntou a ela se existiria alguma esperança,
ao que Mary respondeu com a verdade, contando que seu estado
era muito crítico.
Então, Poe disse:
-Não quero dizer isso. Quero saber se há esperança para um
miserável como eu após essa vida.
Mais tarde, o Dr. Moran tentou animá-lo, dizendo que ele logo
estaria na companhia de amigos do médico, que saberiam tratar
melhor de seu caso, ao que Poe respondeu:
-O melhor que seu amigo pode fazer é estourar meus miolos
com uma pistola.

A causa da morte de Edgar é fruto da especulação de muitos biógrafos e leitores. Várias possibilidades foram cogitadas no último século de pesquisa, a maioria atribuída ao consumo de álcool. Além disso, já se cogitou raiva, sífilis, diabetes, uso de drogas, doenças do coração, tuberculose e até envenenamento. Não é difícil, contudo, após a análise dos seus sintomas mais recentes antes da morte e de seus hábitos nos últimos anos de vida, concluir que Edgar foi vítima de uma congestão cerebral – uma lesão do cérebro que pode ter sido causada enquanto ele estava bêbado e complicada por uma inflamação intestinal, visto que não comia há dias, um coração enfraquecido e, possivelmente, diabetes.

Além disso, ele passara os últimos meses enterrado num estado constante e intenso de amargura, o que pode ter desencadeado uma série de reações negativas de seu corpo à primeira fraqueza física. Em cartas que escreveu nesse período, deu provas claras de que sua saúde mental era deplorável, como na que enviou a Annie Richmond, em maio de 1849, onde disse que sua vida parecia “feita para se perder” e seu futuro, “um terreno baldio pavoroso”; e acrescenta, paradoxalmente, que pensa em continuar lutando “por ter ‘esperança contra toda esperança’”.

Para a sogra e tia, Maria Clemm, quem tomou por mãe com o passar dos anos, confessou haver sofrido de delirium tremens, psicose que acomete pessoas em estado de abstinência química. Ele disse: “Durante mais de dez dias estive totalmente transtornado, fora de mim, ainda que não tenha bebido uma só gota; durante esse lapso, imaginei as calamidades mais atrozes. Foram somente alucinações, consequência de um ataque como jamais havia experimentado em minhas carnes”. Ele chegou, inclusive, a pedir que ela morresse com ele, numa de suas últimas cartas, onde também revelou ter se mantido sóbrio pela memória de Virginia: “Não nos resta senão morrer juntos. Agora já de nada serve argumentar comigo; não posso mais, tenho que morrer. Desde que publiquei Eureka, não tenho desejos de seguir com vida. Não posso terminar nada mais. Pelo teu amor era doce a vida, mas temos de morrer juntos. (…) Desde que me encontro aqui estive uma vez na prisão por embriaguez, mas eu não estava bêbado. Foi por Virginia”.

Na sua última carta, entretanto, escrita três semanas antes de sua morte, ele se mostrou surpreendentemente otimista a respeito da vida e do que estava para lhe acontecer dali em diante, ponto alto da manifestação de sua dualidade interior, de sua natureza confusa e complexa, que nem quase duzentos anos de estudo soube interpretar com certeza.

O homem real sob a invenção do tempo

Edgar Allan Poe foi, sem dúvida alguma, um dos maiores poetas de que já se teve conhecimento na literatura mundial, e, definitivamente, um homem cuja vida foi perpassada por demasiados eventos para que possa ser contada com brevidade. E com todos é assim. Poe, contudo, foi personagem de mentes muito criativas e, eventualmente, mal intencionadas. Após sua morte, muitas mentiras a respeito de seus costumes e dos episódios de sua existência foram alimentados para a construção, propositada ou não, de uma figura quase sobrenatural, tão medonha e perturbada. O próprio Dr. Moran foi colocado em cheque quando descobriu-se, posteriormente, que ele poderia ter usado a celebridade de seu paciente para promoção de interesses próprios, o que fez com que sua credibilidade sobre os fatos que se seguiram à morte de Poe decaísse.

Além disso, dias após a morte de Edgar, apareceu um obituário, assinado por Ludwig, onde ele foi retratado como um homem louco, excessivamente arrogante, que assumia que todos eram vilões e que se enjoava facilmente. Ludwig era, no entanto, ninguém menos que Rufus Wilmot Griswold, um executor literário de Poe e seu inimigo em vida. Somente em 1941, Arthur Hobson Quinn conseguiu provar que Griswold havia falsificado uma série de cartas de Edgar em um de seus trabalhos difamadores, mas, infelizmente, Griswold foi a primeira pessoa a escrever uma biografia completa, ainda que parcialmente mentirosa, de Poe, de forma que sua caracterização do maior romancista do século 19 já havia se tornado demasiado popular.

Maldito

Atualmente, muitas pessoas acreditam, equivocadas, que Edgar era
viciado em ópio, embora não haja nenhum indício crível de que ele
realmente o tenha sido. Algumas fontes dizem que ele morreu após
uma bebedeira do dia 6 de outubro, na taverna em frente a qual foi
encontrado, mas sabe-se que ele foi levado para o hospital no dia
3, e que o álcool pode, ainda, não ter tido relação direta com sua
morte.
Edgar era um homem extremamente inteligente e, apesar de suas
egocentricidades, gentil e elegante. Sua imagem de “maldito” é
propagada até hoje, mas sua ruína foi causada pelos mesmos
infortúnios aos quais basta ser humano para estar sujeito.

Edgar Allan Poe é atemporal e digno do maior louvor. Escreveu por volta de 100 contos e poemas em toda a sua vida, mas viveu pouco. Da sua infância, condicionada a eventos extremos, à sua fase adulta, permeada por sucessos, amores e dificuldades, foi marionete de um destino criativo e, no fim, do próprio corvo que criou. Não é difícil se espelhar em Poe ou se identificar com os rumos que tomou sua vida, mas nem o escritor mais talentoso poderia usurpar seu estilo e sua graça, belamente macabra e eternamente gravada na memória das letras do mundo.

“Tudo o que vemos ou parecemos não passa de um sonho dentro de um sonho.”

Obituário orientado pelo professor Reges Schwaab, na disciplina Redação em Jornalismo II (2013.1)

Edmar Borges

Edmar Borges - Edmar Borges é estudante do curso de Jornalismo da Ufop. Trabalhou na Comissão organizadora da IV Semana de Estudos em Comunicação da Ufop e na monitoria do Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana - Fórum das Artes 2013.

Um comentário em O Torvo?

  1. Carmélia de Castro Vargas disse:

    Muito bom trabalho, parabéns, Edmar Borges!

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