Suplemento Literário – Jornalismo Biográfico

Marta Maia

Ouro Preto com suas ruelas, becos e entradas inesperadas carrega um quê de outro mundo. Situações enigmáticas aparecem e somem com a mesma frequência. Pois é neste contexto que surge um personagem etéreo/concreto, vendedor de livros e idéias, bem nas escadas do Cine Vila Rica, perto da rua direita e que encerra senão a história, ao menos uma boa parte da mesma. Pergunto o nome deste “vendedor” e a resposta soa estranha: “o fantasma do cinema”. Ainda um pouco atônita, pergunto o preço de uma biografia, recém lançada, e escrita por um jornalista. “Essa aí eu ganhei, mas faço mais barato, já que não consigo vendê-la; além do mais foi escrita por um jornalista”. Estranho o comentário, já que conheço o autor e a obra e sei que o resultado é muito bom. Insisto: “Qual o problema de ter sido escrita por um jornalista?”. A resposta vem como um petardo: “Eles [os jornalistas] não têm método”. A conversa ganha corpo com a intervenção de um estudante do curso de história que estava ao lado esperando para comprar um livro.

Situação à parte, esta questão me intriga há algum tempo. Se na área da história, por exemplo, a produção biográfica conta com reflexões consistentes, com tentativas mais recentes que procuram reabilitar esse gênero (ou subgênero, como preferem alguns) híbrido, na acepção de François Dosse, no campo jornalístico são tímidas as manifestações reflexivas sobre o assunto.

O crescimento editorial das biografias escritas por jornalistas atestam a necessidade de um aporte mais direto por parte do campo jornalístico. Quem são estes profissionais que se lançam à produção biográfica? O que dizem sobre essa produção? Quais os procedimentos metodológicos que utilizam neste processo? Qual a análise feita pelos críticos? Qual a interlocução entre os pares?

Questões que não serão respondidas neste texto, mas que merecem alguns apontamentos que serão colocados a seguir.

O Brasil conhece, em especial a partir da década de 90, um vertiginoso crescimento editorial de biografias escritas por jornalistas. Nomes consagrados pelos altos índices de vendagem como Ruy Castro, Fernando Morais, Jorge Caldeira, José Castello, entre outros, colocam a disposição do leitor histórias saborosas sobre a vida de inúmeros personagens brasileiros como Nelson Rodrigues, Vinícius de Morais, Assis Chateaubriand (Chatô), João Cabral de Melo Neto, Barão de Mauá, entre tantos outros, que são impressos, literalmente, na história contemporânea.

Algumas destas produções começam então a ser estudadas, afinal é preciso refletir sobre as visões que permeiam este processo. Sergio Vilas Boas é um dos precursores desta discussão de maneira mais específica. Em seu livro “Biografias e Biógrafos”, lançado em 2002, aponta para a necessidade desta discussão ao analisar como ocorre esse trabalho autoral a partir especialmente das biografias de Chatô, Mauá e Estrela Solitária (Garrincha).

Antes dele, entretanto, a pesquisadora Maria Aparecida Baccega, sem a pretensão explícita de discutir biografias, já levantava que se o escritor [literário] trabalha com o presente, a partir da verossimilhança, e o historiador reelabora o passado a partir do presente, então ao comunicador/jornalista competem as duas operações conjuntamente, o que a leva a concluir que a tarefa deste último profissional é, sem dúvida, muito mais complexa.

Ao produzir um trabalho biográfico, o profissional deve-se valer de inúmeras experiências reflexivas das várias áreas do saber como a antropologia, história, psicologia e literatura para assim poder dar o contorno necessário à “ilusão biográfica”, nas palavras de Pierre Bourdieu.

Cabe ainda, neste breve texto, um exemplo que considero emblemático. Trata-se da obra do jornalista e crítico literário José Castello, denominada João Cabral de Melo Neto: O homem sem alma. Em sua segunda versão, publicada em 2006, o jornalista acrescenta o que ele denomina “Diário de tudo”, em que relata as suas impressões dos 21 encontros que manteve com o poeta entre março de 1991 e abril de 1992. Ao possibilitar a socialização do processo de produção desta biografia, Castello levanta algumas questões de caráter metodológico que ajudam a pensar sobre os procedimentos utilizados para a composição desta obra, acrescentando mais alguns elementos que ajudam a configurar um espaço reflexivo na área.

Mesmo tardiamente, portanto, já é possível identificar trabalhos mais consistentes, tanto na academia quanto em ensaios publicados nos meios convencionais, que começam a refletir sobre o processo de produção das obras biográficas, em especial as escritas pelos jornalistas. Um exemplo contundente foi o Fórum das Letras, edição 2009, que conseguiu reunir alguns dos maiores jornalistas (além de pensadores) responsáveis por publicações biográficas. Nestes dias pôde-se perceber que a questão metodológica faz sim parte da preocupação destes profissionais que encaram com seriedade esta nova vertente autoral.

Espero que “o fantasma do cinema” tenha acompanhado este evento, realizado em boa parte, em “seu” local de trabalho, e que tenha conseguido, mesmo com sua aparição simbólica, algumas respostas a esta desconfiança metodológica, que não deve ser desprezada, mas que, em boa parte, foi elucidada nos depoimentos e debates ocorridos no Fórum. Entretanto, alguns enigmas ainda persistem…

Texto publicado no Suplemento Literário de Minas Gerais – Edição Especial sobre biografias (2010)

Marta Maia - Professora Adjunta II, presidente do Colegiado do Curso de Jornalismo da UFOP e coordenadora do projeto Prosaico - Histórias de Vida.

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