Viver… E não ter a vergonha de ser feliz

Bárbara Andrade Andrade Corrêa da Silva

A vida de Elizabeth Maria de Souza Camilo é uma caixinha de surpresas. É impossível conversar não se impressionar com a sua história e sempre há algum detalhe que consegue surpreender. Quem conhece o seu cotidiano não arriscaria dizer que tem verdadeira paixão por esportes radicais. Muito menos que nos anos 60 seguia ortodoxamente os costumes da cultura hippie, e ainda se considera um deles!

Entrevista  com Elizabeth Maria de Souza Camilo. Foto: Divulgação Elizabeth Maria de Souza Camilo: Viver… E não ter a vergonha de ser feliz. Foto: Divulgação.

Formada em Letras pela Universidade Federal de Ouro Preto-UFOP, cursa hoje, depois de vários anos longe da vida acadêmica, o curso de Comunicação Social com ênfase em Jornalismo e o Mestrado em Letras direcionado para Linguística e Memória. Mas enfrentou muitas limitações até chegar onde está hoje.

Quando criança, a família, formada pelo pai, pela mãe e os três irmãos, era muito pobre. Não tinham dinheiro pra comprar livros, e Beth conseguia-os emprestados com funcionários da escola em que estudava, sua avó materna, com quem tinha uma ligação muito forte, também lhe dava alguns, e já achou livros até na lixeira da rua.

Aos doze anos começou a trabalhar como professora particular, para ajudar financeiramente em casa. Isso ajudou muito no seu amadurecimento profissional -“na minha época, quando me formei em Letras, mulher não tinha valor no mercado de trabalho. Eu me sobressaí realmente, porque já trabalhava desde os 12 anos, então tinha experiência.”- e também na vida pessoal, já que ela não tinha muitos amigos. Dando aulas, entrava em contato com outras pessoas que tinham a idade aproximada à dela.

Elisabeth é epiléptica, mas nunca permitiu que a doença fosse um obstáculo. ”Quando eu tinha nove anos, um médico disse aos meus pais que a epilepsia, além de me forçar a tomar remédios controlados pelo resto da vida, me tiraria da escola e do trabalho e que me impediria de ter filhos. Depois dessa conversa, meus pais decidiram me tirar da escola. Mas eu não deixei! Ameacei me matar se eles fizessem isso.”

Através dessa colocação, Elisabeth deixa clara a determinação com que enfrenta os problemas que a vida apresenta. Um deles foi o seu casamento com Geraldino, o seu primeiro marido. Ele se casou pressionado por sua mãe, e talvez por esse motivo, eles não conseguiram ser felizes durante os dez anos em que viveram juntos.

Apesar do fracasso do casamento, este lhe deu dois filhos que são, junto com o terceiro, as coisas mais importantes na sua vida e até mesmo o trabalho, uma de suas maiores alegrias ficou em segundo plano sempre que sua presença era necessária perto deles.

Após o nascimento de cada um dos filhos, ela parava de trabalhar, até sentir que eram independentes o bastante para que pudesse voltar. O filho mais novo, fruto do seu segundo casamento, nasceu em 1995, e por esse motivo, Elisabeth abandonou o emprego como Diretora na Biblioteca da Escola de Minas, onde trabalhava desde 1986. Ela só voltou à ativa em 2009, quando retomou os estudos, no curso de Jornalismo.

O segundo marido de Elisabeth é Antônio Carlos. Eles se conheceram quando eram colegas de trabalho na UFOP e apesar dos 15 anos em que estão juntos, o relacionamento dos dois é “espetacular”, como ela mesma descreve. Uma vez por ano, para não deixar o casamento cair na rotina, os dois viajam algum lugar diferente. Além disso, fazem trekking, rapel e acampam com freqüência, em lugares como o Parque da Cachoeira das Andorinhas.

A casa em que moram hoje foi construída com esforço por Elisabeth, que a planejou “ecologicamente”. De todos os 19 cômodos que a casa possui, seu lugar preferido é o escritório, onde ela gosta de estudar, “cercada de verde por todos os lados”.

A rotina de Elizabeth, hoje dividida entre a vida acadêmica e conjugal não deixa transparecer as várias experiências que já viveu. Ela já foi hippie, e acredita que nunca deixou de ser. Andava com os cabelos longos e trançados, usava gírias e roupas coloridas e era vegetariana. Não carrega uma posição ortodoxa quanto à filosofia da época, mas mantém vários costumes.

Elisabeth também cantou no coral clássico São Pio X por 17 anos e tocou violino na orquestra do coral. Hoje, a mais extravagante das atividades de Elisabeth é a dança. Ela participou da extinta Academia Mactub, aonde aprendeu danças exóticas, como danças árabes e africanas e rituais. A academia fechou, mas ela continua dançando e até mesmo é convidada para dançar em festas e eventos. “Danço por prazer!”.

Politicamente ativa, Elisabeth é Secretária da Associação dos Moradores do bairro Alto-da-Cruz e é filiada ao Partido Verde. Já foi convidada por duas vezes à concorrer ao cargo de Vereadora, mas não aceitou, por acreditar que sendo politicamente correta como é, poderia decepcionar algumas pessoas que votassem nela e esperassem algum tipo de vantagem com sua eleição.

O seu maior sonho hoje é concluir um pós-doutorado na área de Linguística para trabalhar com pesquisa e abrir uma livraria. Enquanto isso não acontece, ela continua conciliando várias atividades, dentre elas culinária árabe, confecção de peças artesanais para a sua própria casa, como colchas e cortinas, crochê e tricô (que aprendeu com a avó) e jardinagem. Diante dessa enorme e eclética “bagagem” de vida, ninguém duvida que Elizabeth consiga realizar todos os seus sonhos.

Bárbara Andrade Andrade Corrêa da Silva - Estudante do curso de Jornalismo da Universidade Federal de Ouro Preto

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *